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Acidente de consentimento

Por Lino Naderer


Essa é uma adaptação do texto original de Charlie Glickman sobre acidentes de consentimento, "Consent Accidents and Consent Violations". O texto não está mais no ar, mas por dar uma visão clara de como lidar com esse tipo de situação, não pude deixar de trazer um pouco dele para vocês.


Acidente de consentimento é uma coisa, violação é outra. A violação acontece quando alguém escolhe conscientemente ignorar os limites do outro. É alguém indo lá a fazendo algo não consentido de propósito.


Já acidentes de consentimento acontecem por erro, falha de comunicação, mal-entendidos, por uma das partes não ter toda a informação. Mas isso não faz o que aconteceu doer menos. Se alguém pisar nos seus pés vai doer, tendo a pessoa pisado sem querer ou de propósito. Mas quando não é de propósito, o que faz a diferença é como quem pisou no seu pé aborda a situação e o como ela vai se posicionar para resolver o problema.

Há desafios importantes quanto a esse assunto. Emoções como dor, medo, raiva, vergonha e pesar podem tornar difícil ver a situação com clareza, falar sobre ela com compaixão por si mesmo e pelo seu parceiro e lembrar da responsabilidade de cada um por suas escolhas e ações.


E, do lado de quem machucou o outro sem querer, sabemos que é fácil cair numa reação de vergonha quando apontam para nós. A vergonha pode nos fazer ficar defensivos, e aí podemos querer nos evadir da responsabilidade, entrar em desamparo e pegar toda a culpa para a gente ou começar a culpar quem foi machucado. E aí, ao invés de nos inclinar em direção ao desconforto e lidar com ele, acabamos evitando o problema.

Essas são formas realmente comuns de reagir a vergonha e muitos de nós agimos assim vez ou outra. Mas infelizmente, essas formas de agir também se misturam com culpar a vítima, gaslighting e as muitas outras formas com que pessoas que foram agredidas ou abusadas são silenciadas.




Resolvendo um acidente de consentimento


A chave para lidar efetivamente com um acidente de consentimento é ser capaz de trazer todas as peças da situação. Muitas pessoas têm mais prática ou são mais habilidosas nisso do que outras. Há algumas formas de agir que podem ajudar nisso, então entenda os passos abaixo como sugestões gerais e remodele-as para caber na sua linguagem, no seu relacionamento e na sua situação.


1. Que bom que você me contou. É difícil se arriscar em ser vulnerável quando já se está machucado. Então se alguém lhe diz que se machucou com algo que você fez ou algo que aconteceu, honre a coragem dele. Reconheça-os ao te contarem o que aconteceu, mesmo que sua visão do que rolou seja muito diferente.


2. Sinto muito que você tenha passado por isso. Se você conseguir simpatizar com eles, isso começará a construir uma ponte entre vocês e a curar a desconexão que acabou de acontecer. Mostre que você sabe e entendeu que eles não tiveram a experiência que queriam e seja solidário. Isso não significa que você esteja se colocando culpado pelas coisas. Você só está dizendo que você sabe que eles não tiveram a experiência que queriam. Algumas formas de dizer isso:


Sinto muito que você não pode aproveitar como nós dois queríamos.

Sinto muito que você tenha se machucado e não ficou confortável para me dizer naquela hora.

Sinto muito se fizemos algo para o qual você não estava dizendo sim de verdade.

Observação: essa não é a hora para resolver o problema ou determinar responsabilidade. Isso virá depois.


3. Eu não tive intenção de te machucar, mas vejo que te machuquei. Esse é o momento em que você começa a trazer os dois lados. Você não queria machucá-lo, mas mesmo assim aconteceu. Talvez tenha sido uma falha de comunicação. Talvez você genuinamente tenha achado e que ele queria o que você estava fazendo. Talvez você não tenha sacado os sinais não verbais. Talvez eles disseram a safeword, mas a música estava muito alta e você não ouviu. Apesar de ser verdade que você não tenha percebido o que estava acontecendo (e espero que se você tivesse, você teria parado), isso não muda o fato de que alguém se machucou.


Tem que haver espaço para reconhecer ambas as peças porque, por definição esse é o cerne do acidente. A maneira com que você pode reconhecer que isso aconteceu é segurando esses dois elementos. É importante dar o mesmo peso a eles porque eles são igualmente verdadeiros.


Se você enfatizar que não foi de propósito, você está tentando chegar a cura e resolução desviando da sua responsabilidade. Mesmo sendo um bom mecanismo de defesa contra sentir vergonha, isso vai fazer a situação piorar. E se você subestimar o fato de que não foi de propósito, você corre o risco de pegar para si muita responsabilidade e acabar se culpando demais. Mire a zona do meio, na qual ambas as peças são importantes e nenhuma é mais importante que a outra.


4. Sinto muito por ter feito aquilo. Acidentes de consentimento podem acontecer mesmo quando você fez tudo o que é razoavelmente esperado. Consentimento tem a ver com zelo, mais do que com segurança absoluta. Mas quando há algo que você poderia ter feito diferente, você tem que genuinamente pedir desculpa por isso.


Talvez não seja suficiente dizer “Me desculpe.” Você vai aumentar as chances de reconexão se você nomear a coisa, mostrando que entendeu realmente aonde o acidente aconteceu. Você não precisa entrar em cada detalhezinho, mas você precisa sim mostrar que você entendeu o que aconteceu para a outra pessoa.


Se você estiver realmente confiante que você teve o devido cuidado, você pode dizer algo como “Sinto muito que isso tenha acontecido”. Essa é uma boa forma de reconhecer que algo ruim aconteceu sem pegar para si responsabilidade para além do que seria razoável. Mas tenha cuidado em perceber se você estiver se sentindo defensivo ou reativo, pois aí talvez você esteja se desviando da responsabilidade.


5. O que eu poderia ter feito diferente? Na verdade existem duas perguntas aqui: O que eu deveria ter feito que eu não fiz? O que eu fiz que eu não deveria ter feito? Essas são perguntas bastante desafiadoras pois nos colocam numa posição vulnerável de olhar para quaisquer erros que talvez tenhamos cometido. Uma razão de começar a conversa agradecendo seu parceiro por ter falado é porque isso te lembra que ele se arriscou muito ao iniciar a conversa e prepara o terreno para que ele também perceba que você também está se arriscando em levar isso a sério.


Há duas cosias importantes de se observar. Primeiro, seu parceiro talvez não saiba por em palavras o que você poderia ter feito diferente. Se isso acontecer, talvez você tenha que explorar o assunto com ele. Qual foi o momento em que as coisas mudaram para você? Quando você percebeu que não estava se sentindo bem? O que eu estava fazendo nessa hora? O que eu poderia ter feito para prevenir isso? Essas perguntas podem ser muito difíceis de fazer, especialmente porque você tem que fazer o seu melhor para deixar a defensiva de lado abordá-lo com curiosidade genuína.




A outra peça importante é que seu parceiro está num estado de dor ou vergonha, então talvez ele ainda não tenha uma resposta para essa pergunta ainda. Ou eles podem falar a partir da dor, o que pode levá-los a fazer demandas nada razoáveis. Antes de ir para a resolução de problemas, você tem que ir em direção aos sentimentos e dar espaço adequado para eles. Talvez leve tempo para o sentimento percorrer seu trajeto. Talvez ele precise ter apoio de outra pessoa primeiro. Sim, é difícil dar espaço para emoções dolorosas que são resultado da nossa própria ação. Mas até os sentimentos terem a chance de cumprirem seu ciclo, é difícil vir com boas respostas para a pergunta sobre o que você poderia ter feito diferente.


E lembre-se que pode levar tempo ou essas respostas podem vir um pouco de cada vez. Você pode dizer que essa é uma conversa aberta e que vocês podem voltar a ela. Isso ajuda muito na reconexão, pois você mostra que está disposto a agir com responsabilidade em relação ao que aconteceu.


6. Isso é o que vou fazer para evitar que isso aconteça de novo. Se há algo que você possa fazer para aprender com o que aconteceu e aumentar sua habilidade para reduzir as chances disso se repetir, se comprometa com isso. Busque o que você precisa para fazer acontecer. Consiga o apoio e o aprendizado que você precisa para evitar esse acidente no futuro. Você talvez precisa fazer alguma leitura sobre como fazer aquele ato com segurança, talvez precise conversar com um amigo, talvez tenha que mudar hábitos ou descobrir como falar sobre o que uma potencial experiência erótica significa para você.


7. Tem algo mais que você acha que precisa? O que falamos até agora te deixou tranquilo? Às vezes achamos que a situação está resolvida quando na verdade não está para quem foi ferido. Pergunte. Talvez eles precisem que você entenda algo sob a ótica deles um pouco melhor ou saber que você não está bravo ou ficar um pouco quietos com os próprios sentimentos.


Se eles não sentem que a situação foi completada e não sabem dizer o que falta, mostre que tudo bem eles tomaram o tempo que precisarem e retomar a conversa novamente. Talvez seja necessário ir degrau por degrau, especialmente se o problema for em relação a um padrão antigo no relacionamento. Pode ser difícil, mas aguentar um pouco pode trazer resultados melhores que pressionar uma solução.





Superando um Acidente de Consentimento


Esses passos ajudam curar a dor e tornam mais fácil de prevenir que a dor e a raiva se cristalizem e virem ressentimento. Ressentimento é o que mais mata relações e, uma vez que isso se torna comum, é difícil de quebrar o ciclo.


A melhor forma de estar preparado é sabendo o que fazer quando (e não se) acontecer. Porque acidentes de consentimento irão acontecer. Nós erramos. Nós nos distraímos. A gente lembra errado ou não entende direito qual a zona de conforto de alguém. Nossas preferências e desejos mudam (e às vezes só percebemos isso depois). O momento de aprender os primeiros socorros é antes de alguém se machucar, não depois.

Observação: um dos sinais de que a pessoa com a qual você está é um narcisista é, diante de um acidente, geralmente reagir se evadindo do problema, não reconhecendo que ele existe ou te culpando. É como se quando pisasse no seu pé e doesse, ele dissesse coisas como:


O seu pé é que estava no caminho.

Eu não tive a intenção, portanto não doeu.

Eu não pisei no seu pé, eu tropecei.

Pisadas no pé não doem, portanto você está criando problemas a toa.


Texto de Equina Nur

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