Da Colônia ao Império: como era o sexo

Atualizado: Jul 21


“Não existe pecado do lado debaixo do Equador

Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor

Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho

Um riacho de amor

Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo

Que eu sou professor”


Foi com a letra de Chico Buarque e Ruy Gerra na voz de Ney Matogrosso que iniciamos a entrevista com a historiadora e escritora Mary Del Priore. Com 48 livros publicados, ela é tão modesta que não me permitiu caprichar na apresentação com o seu currículo: especialista em história do Brasil, pós-doutorada na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, na França, ex-professora da USP e da PUC/RJ e colaboradora de veículos nacionais e internacionais. Eu sou fã desde que li “Histórias Íntimas, sexualidade e erotismo na história do Brasil” e baseada na obra, fizemos umas das lives mais cheias de sorrisos do Sexsência.

Segundo Mary, os documentos históricos mais abundantes que temos são os processos relacionados à sexualidade, como por exemplo os casos de meninas abusadas e de casais que viviam ilicitamente. Da Colônia ao Império, a sexualidade era tratada com “camisa de força” dentro da Igreja, a começar pelas posições sexuais. O correto era sempre “papai e mamãe” porque a instituição acreditava que a mulher em cima do homem tinha provocado o dilúvio de Noé, a mulher de quatro remetia aos animais e o sexo era um gesto que tinha de ser consagrado para a procriação da família e por isso não poderia ser sujo. O que sabemos é que basicamente abaixavam as calças e levantavam as saias.


Os locais de encontro eram muito engraçados, pois diferente de hoje que procuramos um quarto para termos mais privacidade e conforto, na época, como as casas eram muito rudimentares com paredes pela metade e portas sem trancas e sem maçanetas o sexo era sempre feito fora, em praias, nos campos, no meio do mato ou qualquer outro canto inusitado. Perguntei se as paredes baixas entre os cômodos da casa expunham a sexualidade dos casais às crianças. Mary afirma que não, que a pureza das crianças sempre foi preservada embora haja diversas literaturas relatando que, a presença constante de animais que copulavam pelas ruas, preenchiam o imaginário de jovens que iniciavam a vida sexual.


A higiene também tinha o seu impacto visto que ela permitia que o erotismo se desenvolvesse entre os casais. As relações entre os adultos eram pontuais e bem rápidas, e sem preocupação com o prazer feminino porque nem se considerava essa possibilidade. A historiadora cita o famoso poeta barroco, o baiano Gregório de Matos, apelidado de “Boca do Inferno”, que no final do século XVII desnuda uma mulher falando do colo, do bumbum, das costas e coxas dela, o que é muito raro, pois o que sabemos é que o sexo era na base do “abaixa e levanta” mesmo. E isso no chão duro, porque não havia camas, dormia-se em redes ou esteiras. Ou seja, a higiene e comodidade que nos dão liberdade para encontros hoje não existiam. As relações eram pontuais, higiênicas e bem rápidas, e sem preocupação com o prazer feminino porque nem se considerava essa possibilidade. A historiadora cita o famoso poeta barroco baiano Gregório de Matos, apelidado de “Boca do Inferno”, que no final do século XVII desnuda uma mulher falando do colo, do bumbum, das costas e coxas dela, o que é muito raro, pois o que sabemos é que o sexo era na base do “abaixa e levanta” mesmo. E isso no chão duro, porque não havia camas, dormia-se em redes ou esteiras. Ou seja, a higiene e comodidade que nos dão liberdade para encontros hoje não existiam.

“E o sexo nas igrejas?”, eu quis saber e ela disse que hoje quando imaginamos uma igreja logo pensamos em luzes acesas e altares maravilhosos, mas a arquitetura barroca dos antigos locais da fé católica permitiam que as capelas laterais onde ficavam as imagens fossem muito escuras e a gente sabe que aconteciam relações sexuais nesses cantos por meio das cartas dos próprios bispos. Ainda mais em época de Semana Santa, em que se velava o corpo do Cristo morto e havia uma sensação de introspecção muito forte, os casais se aproveitavam do momento para encontros sexuais.


Hoje temos como referências de sexo o que há na literatura, no cinema e na internet. Imaginamos o sexo como algo de muita liberdade, gemidos e posições. No passado os comportamentos eram diferentes. Gemidos dentro das igrejas eram impensáveis, visto que o ofício era para apagar as trevas, era local de pessoas ajoelhas rezando. Havia a dualidade entre Deus e o Diabo. Nas igrejas havia também a paquera. A missa dominical era a única saída da semana das meninas que eram obrigadas a se casar com os escolhidos dos pais. Os “gaviões”, como eram chamados os jovens afoitos, ficavam em cima das “pombas” e estas quando colocavam a mãozinha na pia da água benta ganhavam um beliscão no antebraço, moda importada de Portugal e estes precisavam deixar marcas, quanto mais hematomas, mais intenso era o amor. As formas de namoro eram muito engraçadas e havia também a pisadela onde o rapaz se aproximava da moça e a pressionava delicadamente nos pés.

Continuei a conversa brincando com o fato de que os seios não eram eróticos e sim os pés e se foi a partir daí que surgiu o fetiche por pés aqui no Brasil. Mary responde com muita simpatia que o pé sempre esteve na moda na Europa, basta lembrarmos a história da Cinderela que é muito mais antiga que a Disney. A mulher com o pé pequeno, desde a Idade Média, passava pelos trovadores franceses e poetas portugueses, e significava realeza. Ela era uma princesa que não trabalhava. O pé de uma mulher que vai pra roça era grande e protegido por tamancos amarrados. A paixão pelo pé era símbolo do amor pela mulher de elite. Há quem diga que os europeus trouxeram essa cultura do Oriente onde mulheres e homens cultivavam o erotismo no pé pequeno, mesmo porque no Japão era disseminada a cultura da higiene e do banho. Nos anúncios de vendas de escravos que começam a aparecer nos jornais de Salvador e Recife no século XIX a mão e o pé pequeno eram sempre símbolos da bela africana. O erotismo pelos seios chegou ao Brasil junto com a boneca Barbie. Os seios no Brasil sempre tiveram a função de alimentar a criança, era o lugar da maternidade, quase um conclave. Mesmo porque as mulheres tinham dez, doze filhos, logo os seios vinhas nos joelhos. Basta imaginarmos que o sexo até a década de 1950 era feito de pijamas e camisola. No século XIX, homens e mulheres usavam camisolões com uma abertura na frente onde bordava-se em volta “Deus proteja esse lar”, e era através desse buraquinho que as coisas aconteciam. Não havia esse contato físico que hoje buscamos.

Questionei sobre o conceito de “branca para casar, mulata para fornicar e negra para trabalhar” como na frase de Gilberto Freyre em seu livro “Casa Grande e Senzala”.


A escritora, assim como eu, também lamenta que muitos em nossa sociedade ainda pensem assim contrariando a força da mulher negra no passado, mesmo que tenha sido um ditado muito comum nos anos de 1920. De dez anos pra cá os historiadores têm feito um esforço fenomenal para entender um pouco sobre a mestiçagem no Brasil. Há quem diga, de maneira muito negativa e maldosa que as mulheres negras eram sistematicamente estupradas pelos sinhozinhos brancos. Hoje temos trabalhos de profissionais consagrados mostrando que a mestiçagem aconteceu baseada em relações muito estáveis. Haviam espaços privados para as famílias de escravos bem diferentes das senzalas retratadas em novelas onde eram tratados como bichos. As mulheres forras começam a ter mobilidade social enorme a partir do final do século XVIII. A segunda classe mais rica nas Minas do Ouro – Minas Gerais –, depois dos homens brancos eram as mulatas e negras forras que tinham obtido riqueza graças ao comércio. Muitas eram mineradoras e conquistaram ascensão social. Essas mulheres vão ser as mães dos médicos, jornalistas e advogados que vão lutar pela abolição da escravatura. Seríamos muito ingênuos se pensarmos que essa miscigenação foi feita na base do estupro. Quem trabalha com testamentos dos séculos passados, como a Mary Del Priore atesta a preocupação de pais brancos ao deixarem suas heranças para filhos com uma ex-escrava ou uma mulher forra. As mulheres negras enriqueciam tanto que só se casavam mediante contrato pré-nupcial, pois tinham medo que seus maridos levassem seus bens – joias, imóveis e escravos. Há protagonistas mestiços em diversas áreas e de famílias importantíssimas em Pernambuco, Rio de Janeiro e na Bahia. Devemos as artes de igrejas a grandes artistas mestiços que hoje estão ganhando rosto na história justo para romper com esse binarismo entre brancos e negros.


A entrevista estava quase chegando ao fim, mas eu não pude deixar de perguntar quem foram os personagens mais libertinos da história do Brasil. Mary responde que, sem dúvidas, foi D. Pedro I, que pintou e bordou. Ela cita que, em seus estudos, um colega lhe relatou que havia mais de 40 processos por reconhecimento de paternidade do imperador. De fato, ele teve muitos filhos bastardos, e chegou a ter um caso com uma freira a caminho da França depois que deixou o trono para seu filho aqui no Brasil. O fato de ser imperador, fazia dele um sedutor irresistível e não permitia que nenhuma mulher se recusasse a transar, embora sua grande paixão tenha sido a Marquesa de Santos, Domitila de Castro, para quem escreveu muitas cartas eróticas com frases do tipo “quero ir aos cofres”. Ele mandou construir uma banheira para fazer amor com ela em um dos inúmeros imóveis que deu a sua amante. Contudo, o seu amor por ela não impediu de se relacionar com sua irmã, com quem teve um filho nunca escondido. Domitila também não ficou para trás e, embora não fosse muito bonita se aproveitou de seus dotes sexuais para seduzir muitos homens.


O assunto rendeu muito mais informações eróticas do que essas e eu serei eternamente grata pela disponibilidade e o carinho de Mary Del Priore comigo e com o Sexsência. Que ela continue escrevendo a história dessa forma “delícia” como ela mesma diz, para que torne mais leve os debates sobre o que precisamos levar a sério. Para saber mais sobre a sexualidade e o erotismo na nossa história leia o “Histórias íntimas” e confira nossa live na íntegra no Instagram @sexencia.

Leia a edição de julho da Revista Sexsência no https://03fa6c40-27c5-4b01-a28b-3e2c5e157823.filesusr.com/ugd/7cf313_75480b19f9b84aa4a3c88c6ff1368931.pdf


Como especialista em sexualidade eu atendo dúvidas sobre: identidade de gênero, orientação sexual, autoestima e disfunções e inadequações sexuais, de segunda a sábado on line e você pode me procurar no sexsencia@yahoo.com.


Conheça também os cursos que ministro no https://www.sexsencia.com.br/cursos-e-treinamentos e meus livros no https://www.sexsencia.com.br/copia-meus-livros


Ah! Me acompanhe também nas redes sociais, no Instagram estou como @sexsencia e @mariannakisskiss e no youtube.com/sexsencia. #asclitonianas


#historiadosexonobrasil #sexualidadenobrasil #marydelpriore


Eu fico por aqui, gratidão por me ler, cópula a tergo e muita intumescência para o seu dia. Marianna Kiss

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now