• Sexsência

Dor na relação

Por Marianna Kiss


Aproveitando o ensejo desta edição que está totalmente voltada à saúde da mulher, eu aproveito para dividir com você um conhecimento importantíssimo sobre a nossa sexualidade: dor na relação. E, sobre o assunto, eu entrevistei no Instagram a Doutora Nathalie Raibolt, sexóloga, médica ginecologista, terapeuta sexual e mestre em saúde da mulher.


Foto de divulgação


Mari Kiss: Doutora, quais são as dores que uma mulher pode sentir durante o ato sexual?


Nathalie Raibolt: A dor na relação é qualquer dor no ato sexual propriamente dito ou que pode atrapalhar qualquer atividade sexual, inclusive a masturbação. A dor na vulva é a vulvodínea e ela pode ocorrer até fora da relação sexual. Há também o vaginismo, que é a contração involuntária dos músculos vaginais, que provoca dor durante a penetração, a qual pode ser a do pênis, a de dedos ou brinquedos eróticos durante a masturbação e, às vezes essa dor ocorre também durante os exames ginecológicos. Outro tipo de dor é a dispareunia que pode ser no introito (entrada da vagina) ou profunda, que a mulher sente lá no fundo da vagina, que ocorre com a penetração, mas a causa é um pouquinho diferente das características do vaginismo, justo porque às vezes é associada a algumas doenças ginecológicas. E, isso é bem importante para que a mulher procure uma avaliação médica adequada.


Mari Kiss: Essas dores estão diretamente relacionadas a algum histórico de abuso sexual na infância ou adolescência?


Nathalie Raibolt: Não necessariamente. A dor pode até vir como causa secundária a uma experiência traumática, que não necessariamente seja um abuso, às vezes até numa relação consensual a mulher pode passar por dor ou por alguma expectativa diferente, ou ela não estava fisicamente preparada para a penetração. Mas não é só o trauma físico que leva à dor, qualquer experiência psicológica, ou algo que ela tenha observado, visto ou imaginado, mesmo que não tenha vivido propriamente, não precisa ser uma realidade.


Mari Kiss: A endometriose também provoca dor durante a relação?


Nathalie Raibolt: A endometriose é uma dessas doenças que causam dor profunda. Quando o pênis bate profundamente no fundo da vagina, ele provoca uma movimentação do útero que é natural, só que a endometriose provoca a inflamação daquela área e por isso há a dor profunda. Existe tratamento para isso, a gente tenta amenizar a dor para proporcionar qualidade de vida para essas mulheres. É possível sim que elas tenham relações mais prazerosas.


Mari Kiss: Quais são as outras causas biológicas que podem provocar dor?


Nathalie Raibolt: Infecções útero e do colo do útero, ou seja, infecções mais profundas, algumas bactérias sexualmente transmissíveis como a sífilis e principalmente a gonorreia e a clamídia, que são super comuns aos brasileiros, e as pessoas não sabem disso, e elas provocam doenças silenciosas que só aparecem com a dor. Quando é uma dor recente na relação, entre um ou dois meses a gente pensa logo em clamídia. E infecções da vagina, uma candidíase mais grave, doenças do tecido vaginal como o líquen que são menos comuns, mas que é preciso investigar quando a mulher reclama de dor repetidamente, além das doenças da vulva de uma forma geral, como doenças da pele da vulva, cistos das glândulas de Bartholin, dentre outras coisas que impactam a relação sexual.


Mari Kiss: As dores citadas prejudicam ou impedem a chegada ao orgasmo?


Nathalie Raibolt: Primeiro temos de entender qual é a causa da dor, mas de forma geral a gente pode dizer que a mulher que sente dor na relação com a penetração tem o mesmo potencial para sentir orgasmo sem penetração. É preciso lembrar que sexo não é penetração, eles não são sinônimos. Inclusive a gente tem o corpo inteiro erotizado a ser trabalhado com sensações e, a gente sabe que, agora recentemente morreu Shere Hite, a cientista responsável pelo Relatório Hite que é uma pesquisa feita com mais de três mil mulheres nos anos 1970, que mostrou que a penetração é dispensável para o prazer feminino. Isso foi um grande marco na sexualidade porque ficou comprovado que sim, as mulheres podem ter muito prazer independente do parceiro e, com o estímulo clitoriano. As mulheres que conseguem ter orgasmo na penetração, na verdade elas aprendem técnicas e têm uma habilidade maior em se estimular, em se colocar na relação de uma forma em que elas estimulem o clitóris para chegarem ao orgasmo. Temos de desmitificar a ideia de que “não consigo penetração, então não consigo ter prazer”.


Mari Kiss: Reiterando o questionamento de uma espectadora, a mulher consegue identificar se sua dor é nas trompas de falópio ou no útero?


Nathalie Raibolt: Não há como, na relação sexual, isolar os órgãos reprodutivos e identificar se a dor é no útero ou nas trompas, isso só é possível em exames de imagens. Em geral, a gente idêntica mal a origem da dor na pelve, a gente sente uma dor mais difusa porque os tecidos não são capazes de nos dar uma percepção exata. Em toda dor pélvica é preciso investigar a causa que nem sempre é ginecológica, inclusive. A mulher pode sofrer com doenças intestinais, por exemplo, com a síndrome do intestino irritado, constipação intestinal ou qualquer coisa que acometa a parte baixa do intestino pode provocar dor pélvica.


Mari Kiss: Há cura para todas essas dores citadas?


Nathalie Raibolt: Em alguns casos a gente não consegue eliminar a dor por completo, nem resolver completamente o que causa a dor, na maioria dos casos a gente consegue melhorar muito a qualidade de vida da mulher e trabalhar a sexualidade para que ela tenha prazer e entenda a sua amplitude para que consiga explorar as possibilidades além da penetração. No caso da endometriose, muitas vezes há a cirurgia para as mulheres que não desejam ter filhos. A dor do vaginismo é passível de ser curada, mas é um processo muito individual e requer um trabalho muito específico da própria mulher. As dores da vulvodínea e das doenças biológicas, também podem ser curadas.


Mari Kiss: No caso das dores que não têm cura, ainda assim, a mulher que deseja engravidar de forma natural consegue ser penetrada na relação sexual ou não, ela só conseguiria por meio de inseminação artificial?


Nathalie Raibolt: No caso da endometriose, que possibilita à mulher a tolerar a penetração, ela por si só pode provocar infertilidade. No caso de outras dores, a mulher adquire a habilidade de tolerar temporariamente a penetração quando ela deseja engravidar, mesmo porque há diferentes gravidades e especificidades. E, quando não consegue de jeito nenhum ela pode optar pela inseminação artificial e com a sedação o médico consegue inserir o óvulo fecundado no útero ou fazer uma inseminação intra uterina que é diferente da fertilização in vitro onde se coloca o sêmen dentro do útero. Ou seja, existem alternativas para a gestação.


Mari Kiss: O pompoarismo pode diminuir essas dores?


Nathalie Raibolt: O pompoarismo não é uma terapia desenhada para o tratamento da dor pélvica. Mas, existe a fisioterapia pélvica com suas técnicas que podem sim resolver as dores vaginais. No caso do vaginismo mais ainda, pois o pompoarismo vai estimular a contração quando na verdade os músculos vaginais precisam relaxar.


Mari Kiss: No caso do vaginismo, ele é curado apenas com a fisioterapia pélvica?


Nathalie Raibolt: Na minha opinião, a sexualidade se for tratada num só lugar, ela será tratada de forma incompleta. A sexualidade é muito complexa e precisa ser tratada de forma interdisciplinar com ginecologia, fisioterapia pélvica e terapia sexual.


Amada leitora, as perguntas não pararam por aí e por isso te convido a acessá-las no IGTV do @sexsencia, contudo, preciso ressaltar aqui a importância do uso da camisinha para se evitar as infecções sexualmente transmissíveis, algumas delas podem causar dor pélvica. Além disso, na dúvida sobre sua dor procure, no primeiro momento, um ginecologista para que seja investigada a causa e depois inclua no seu pacote de tratamento bons profissionais na área de terapia sexual e fisioterapia pélvica... E, caso precise de uma sexóloga para segurar a sua mão, conte comigo.


Durante a entrevista, a doutora Nathalie citou Shere Hite, uma das pioneiras do feminismo em todo o mundo. Ela faleceu aos 77 anos e sofria com as doenças de Alzheimer e Parkinson. Em 1976, escreveu o “The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality” (Relatório Hite), que a levaram a um longo exílio na Europa ao desafiar os seguidores de Freud, ao constatar que as mulheres poderiam chegar ao orgasmo fora do ato sexual, ou seja, nós somos perfeitamente capazes de alcançarmos o nosso prazer sexual por conta própria, leia-se, usando nossa criatividade, dedos, brinquedos eróticos e o que mais a nossa imaginação permitir sem que precisemos de uma parceria. O best-seller foi traduzido para diversos idiomas e vendeu 48 milhões de cópias em todo o mundo. Eu acabei de encomendar o meu.





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