Educação sexual: um ato de amor

Atualizado: Jul 21

“Faces de dor na Terra

Milhões na escuridão

Violência sem razão

Sei que o amor supera

O carinho pode transformar

Quem de nós

Vai secar a lágrima da dor, da dor

Todo o carinho pra sorrir

Toda a verdade pra ajudar

Carinho de verdade pra sentir

Carinho de verdade pra mudar

Abrace a causa

Abrace uma nação

Abrace a vida com o coração

Abrace o sonho da canção

Deixe uma porta aberta

Pra quem quer recomeçar

Pra quem quer realizar

A força do bem supera

Oportunidade é transformar

Quem de nós”

Curtiu a letra? Pois bem, foi com essa trilha espetacular, “Carinho de Verdade” de Leonardo Sperling e Vanessa Alves, que eu iniciei uma das lives que cito nesta matéria. A primeira foi com Van Inhesta bem no início de junho pelo Instagram do Sexsência. Van é consultora em saúde e educação sexual, sexóloga e trabalha com consultoria e treinamento de produtos sensuais para lojistas de todo o Brasil.

Não é de hoje que eu acompanho diversos sexólogos e terapeutas sexuais nas redes e uma postagem da maravilhosa Van Inhesta me chamou a atenção de um jeito que logo tratei de colocá-la numa live fora dos planos.


Ela contou a seguinte história:

Uma aluninha de cerca de cinco anos comentou com a professora “meu tio lambeu meu biscoito”, que respondeu imediatamente “dá próxima vez peça outro biscoito a ele”. Dias depois a mãe da menina foi à escola questionar o que poderiam ser aquelas feridinhas que surgiram na vulva da filha. O que esse relato te parece?!


Abuso sexual. Sim! E isso coloca em discussão a importância da educação sexual nas escolas e principalmente em casa. Van iniciou a live dando uma dica essencial para os pais: dar o nome certo aos órgãos ou no mínimo nomenclaturas mais comuns em vez de “biscoito”, “florzinha” e afins. Quando a criança sabe corretamente quais são os seus órgãos você, mãe e pai, dão a ela muito mais chance de se proteger. Um abusador pode até ameaçar a criança ou pedir que ela não conte nada aos pais, mas quando se esquece de avisar que a tia da escola também está nesta lista de omissão, sua criança consegue alertar alguém sobre o que está acontecendo. A criança é muito literal neste sentido.


Outro aspecto essencial é a relação de confiança estabelecida entre os pais e a criança e para isso é preciso ter um mínimo de conhecimento em sexualidade para saber que meninos e meninas se tocam a partir dos cinco anos, mas esse toque não é masturbatório, visto que elas não sabem o que é sexo... Há sim prazer, mas é um prazer fisiológico e é neste momento que os pais não devem dizer coisas do tipo “é feio”, “feche essas pernas, menina”, “que coisa nojenta” e sim esclarecer que se tocar significa se conhecer, mas isso é preciso ser feito num local adequado com privacidade e intimidade. Opa! Ótimo ensejo também para que você ensine sua criança a não permitir que ninguém toque na genitália dela, pois o corpo é dela e terceiros podem machucá-la ou incitar coisas desapropriadas para a idade.


No decorrer da live não é que eu descobri que Van é formada pelos mesmos mestres que eu?! Paulo e Graça Tessarioli. Ela fez pelo Instituto Casal Tessarioli o curso para obtenção do título de sexólogo – CTSex – em 2014. Que coincidência boa, né?!


Van também alerta sobre o acesso fácil à pornografia, a conteúdos adultos e a abusadores e oportunistas que a internet proporciona às crianças. E, ela dá a receita do bolo “falar da sexualidade da forma mais simples de todas” e mais, é preciso nos limitarmos a responder apenas o que a criança pergunta e numa linguagem que ela entenda. Nada além. E eu, ainda dou outra importante dica: investigue o porquê a criança quer saber x, y ou z antes de sair falando o que você tem em mente – onde ela ouviu a palavra, quem falou, por que ela deseja saber e etc. Por exemplo, há um vídeo muito legal que circula pela internet onde uma menina pergunta a mãe, que está cozinhando, o que é “virgem”. A mãe dá uma volta ao mundo, cita vários exemplos sexuais e se constrange dando todos os detalhes possíveis de como se “perde” a virgindade. A menina não entende nadinha e em seguida pergunta “o que é extra virgem?”. Ou seja, a menina não queria saber sobre virgindade e sim o que significava a palavra virgem escrita na embalagem do azeite. Na nossa língua, temos de tomar muito cuidado com isso, pois uma palavra pode significar diversas coisas em contextos diferentes.

A segunda live sobre o tema foi com Vivian Esteves, psicóloga, terapeuta cognitiva e especialista na prevenção ao abuso sexual infantil, além de ser minha colega na pós-graduação em terapia sexual pela CEFATEF – Centro de Formação e Estudos Terapêuticos da Família. Conversamos sobre o manual de prevenção da violência sexual na infância “Precisamos falar sobre isso!” que ela escreveu e lançou em São Paulo em 2019 a pedido dos pais que ela atende.


“Estima-se que 228 crianças são abusadas sexualmente por hora. Sendo quatro por minuto e uma a cada 15 segundos. No mundo, a frequência do abuso é em geral de uma menina a cada quatro e um menino a cada seis. Neste exato momento, pode ter uma criança que você conhece sofrendo abuso sexual.” Este é um dos primeiros parágrafos do livro e eu confesso que fiquei bem abalada, justo porque eu tenho uma menina de um ano e meio e só de pensar que na sala de aula em que estuda com mais 24 crianças, pelo menos quatro estão passando por isso é assustador.


Vivian afirma que esta estatística é bem aquém da realidade, visto os casos que não são denunciados e os que não são percebidos já que a maioria pensa que o abuso sexual infantil se limita ao ato consumado (penetração) e ao toque masturbatório. Em suas palestras ela recebe relatos de adultos que, por meio de suas informações, se dão conta de que sofreram abuso na infância e não sabiam. Por exemplo, olhares maliciosos focados na genitália – transtorno voyerista –, nudez constrangedora – transtorno exibicionista –, escatologia telefônica, falar obscenidades a fim de constranger a criança são também considerados atos de abuso sexual.


Outro fator que devemos considerar é que mais de 70% dos casos de abuso acontece dentro do ambiente familiar, por isso é tão difícil e delicado falar sobre o tema. Contudo, devemos, enquanto pais, nos atentar a detalhes como mudança brusca de comportamento – da extroversão à introversão –, isolamento social – não quer mais brincar com os amiguinhos ou primos –, desenvolvimento de compulsões como a alimentar, por exemplo, terror noturno, pesadelos, problemas na escola, repentina falta de cuidados e higiene com o corpo e a aparência, dentre outros. Principalmente, porque, dependendo da idade, a criança muitas vezes não tem repertório para avisar o que está acontecendo. É comum que adolescentes passem a relaxar com a aparência e param de tomar banho porque se culpam por estarem sendo abusados ou numa tentativa de evitar que o abusador os procure novamente.

O abusador se aproxima aos poucos, maliciosamente e com carinho, quando a criança não sabe o que é sexo ela pode sentir o prazer no toque e pensar que é culpada por gostar da sensação. Repito aqui que essa é uma reação fisiológica do corpo e quando isso ocorre não é culpa da criança ou do adolescente. Muitos tentam relatar aos pais o que houve, mas são desacreditados e cometem suicídio, principalmente quando o abusar é o pai ou padrasto.

O manual vem com uma versão para a criança, com desenhos e exercícios lúdicos para que ela aprenda sobre seu corpo e como identificar e se defender de um abusador numa linguagem adequada. Logo, esse tipo de ação comprova que, nós educadores sexuais, não ensinamos o seu filho, criança ou adolescente, a fazer sexo e nem o incitamos a tal. Nós estamos aqui para educar e transmitir informações sobre sexualidade e sempre utilizamos de linguagem adequada a cada idade. Educação sexual é um ato de amor e você, pai ou mãe, pode dar o primeiro passo, busque por informação que vai proporcionar ao seu filho ferramentas de autoproteção.


E, caso você, mesmo que não seja o pai ou mãe, perceba que há uma criança sendo abusada, ligue para o Disque 100 ou procure uma delegacia próxima – as delegacias especializadas em atendimento à mulher ou as especializadas em criança e adolescentes são as principais opções. Há também o site www.safernet.org.br.

Será que estamos bem afiadas no conteúdo?! Se somos alunas e ex-aluna dos Tessarioli com certeza sim, mas se você preferir, pode conferir as duas lives que ficaram super salvas no IGTV @sexsencia, sem contar que Van e Vivian passaram muito mais informações, as quais se eu relatar aqui vou acabar escrevendo um livro. Risos.



Leia a edição de julho da Revista Sexsência no https://03fa6c40-27c5-4b01-a28b-3e2c5e157823.filesusr.com/ugd/7cf313_75480b19f9b84aa4a3c88c6ff1368931.pdf


Como especialista em sexualidade eu atendo dúvidas sobre: identidade de gênero, orientação sexual, autoestima e disfunções e inadequações sexuais, de segunda a sábado on line e você pode me procurar no sexsencia@yahoo.com.


Conheça também os cursos que ministro no https://www.sexsencia.com.br/cursos-e-treinamentos e meus livros no https://www.sexsencia.com.br/copia-meus-livros


Ah! Me acompanhe também nas redes sociais, no Instagram estou como @sexsencia e @mariannakisskiss e no youtube.com/sexsencia. #asclitonianas


Eu fico por aqui, gratidão por me ler, cópula a tergo e muita intumescência para o seu dia. Marianna Kiss


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