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Fidel e o famoso Ernesto

Por Lino Nadere



Lino: Primeiramente, fale um pouco sobre você no BDSM. Quem é o Fidel?


Fidel: O Fidel de hoje existiu desde sempre. Mas, meu despertar para a cena BDSM começou quando nem este nome existia, era somente sadomasoquismo ou dominação e submissão. Naquela época não existia internet e a grande maioria dos fetichistas e sadomasoquistas estavam numa bolha quase que individual, o que ajuda a termos aquele sentimento que somos os únicos que temos aquele desejo pervertido e doentio. Os recursos eram muito escassos até que começaram a surgir anúncios em revistas masculinas de pessoas oferecendo acompanhamento e algumas se diziam Rainhas, ou Donas, numa referência à prática sadô. Quem tinha a chave deste código sabia do que se tratava. Neste início, eu estava convicto que minha natureza era sub e, como tal, fiz algumas sessões com uma Domme chamada Sara, que era de Belo Horizonte e vinha ao Rio de Janeiro eventualmente. Com a entrada da internet, o quadro mudou bastante. Evoluiu muito nestes últimos 20 anos. Os grupos foram se formando e as pessoas que praticavam ou tinham esse desejo que era considerado uma perversão, começaram a se identificar e constatar que o fetiche era muito mais comum do que se imaginava. Então os grupos começaram a se formar e a cidade de São Paulo foi a pioneira de encontros reais em bares da cidade (pelo menos para o meu conhecimento). O primeiro encontro que participei foi na capital paulista, no início dos anos 90, num bar chamado Finnegans (acho que é assim que se escreve). Lá eu encontrei um grupo de umas 15 a 20 pessoas e o local era bem alegre e descontraído. Depois de dois encontros neste bar eu tive a minha primeira Domme. Havia vários personagens muito interessantes, mas logo depois a necessidade de ter encontros no Rio reuniu alguns ousados e aloprados fetichistas. Éramos poucos, mas lembro que a primeira vez que nos reunimos foi num bar/churrascaria, no centro do Rio de Janeiro. Foi muito emocionante trocar ideias com aquelas pessoas. O Fidel, como tal, ainda não existia e a minha identidade era de um simples RicRJ (não me pergunte porquê... Risos). Eu ainda tinha um forte impulso para a submissão, mas sempre soube que não era masoquista e nem podólatra. Nada contra quem seja, mas é apenas uma posição que desde o início me acompanha. Até que num dos encontros que fazíamos (desta vez no lendário bar Vilarinho, no Centro do Rio), uma das meninas presentes disse que eu não podia continuar como RicRJ e, olhando fixamente para meu rosto e para as barbas pretas e longas que eu tinha à época, ela cunhou o nome Fidel. Havia outras pessoas em torno da mesa e o nome foi aprovado imediatamente. Ali, então, nascia Fidel, o Casto.


Lino: Qual era a periodicidade dos encontros fetichistas no Rio de Janeiro?


Fidel: Os encontros eram itinerantes e realizados a cada um ou dois meses.


Lino: De que forma ficava sabendo?


Fidel: Lembro do primeiro no Pampa Gril, outro foi na choperia do Papai, ambos no Centro da Cidade, muitos aconteceram no Vilarinho, mas eram encontros com poucas pessoas e não abertos. Nossos contatos eram por IRC ou mesmo pelos chats que existiam em sites de relacionamentos, até que apareceu uma tal de Gordinha e resolveu expandir os encontros. Ela mal acabava de entrar para o grupo e marcou, sozinha, um encontro no Amarelinho, na Cinelândia... Seria o primeiro encontro mais aberto do grupo. E, fomos prá lá cheios de ansiedade e expectativa, mas também com muita ingenuidade, pois não poderia haver local mais público e menos discreto do que aquele famoso bar do Centro do Rio. Engraçado foi que, pensando numa privacidade maior, escolhemos uma grande mesa nos fundos do bar. Não contávamos que exatamente ali era o caminho obrigatório para os banheiros... Havia muitos jovens, mas também havia algumas casadas que tinham vida dupla. A mulher de um de nossos amigos, quando ao ir para o banheiro, inocentemente, pegou o cara no maior flagrante com sua sub no colo. Já pode imaginar o que aconteceu, né?


Lino: Em que ano foi isso? Como passaram a ser os encontros?


Fidel: Isto foi no início do século, por volta de 2002 ou 2003. Bem, a partir daí, os encontros continuavam intercalados. A Gordinha promovia reuniões em bares do Centro e outro núcleo, mais antigo, mantinha os encontros no Vilarinho (o garçom Gomes era nosso cúmplice e era tipo um Stalone dos dias de hoje). Gordinha sempre foi uma liderança. Super simpática com quem ela gostava e às vezes dura com quem quisesse fazer alguma galhofa com a sua cara. Lembro que fizeram vários encontros em Copacabana e em alguns deles eu participei. Neste período... Estamos falando aí de 2003 / 2004... Me lembro bem de um dos encontros no restaurante Dom Camilo, quando a convidada era a Bárbara Reine, de São Paulo, que veio ao Rio a convite do grupo, para falar de BDSM. Bárbara era uma das lideranças do grupo SOMOS e esteve algumas vezes no Rio com o objetivo de criar uma, digamos, tipo de filial carioca. Nós, do núcleo Vilarinho, resistimos porque desde então já sabíamos que o BDSM do RJ era bem diferente do BDSM paulista. Nada contra, mas era diferente e não cabia de ser institucionalizado com um rótulo e uma liturgia importada… O núcleo então criou um site e nomeou de BAGGOS (Batemos, Apanhamos, Gozamos e GOStamos). Ele tinha uma retórica super irreverente com entrevistas a personalidades do já então existente BDSM carioca, formando uma posição de autonomia e independência. No final, tudo ficou muito bem resolvido e a Bárbara e seus seguidores se tornaram amigos de muitos de nós aqui do Rio (eu mesmo frequentei algumas plays naquele período e que eram organizadas por eles).


Lino: Mas como surgiu, então, o Ernesto?


Fidel: Os encontros da Gordinha aconteciam com uma frequência cada vez maior e com número de pessoas aumentando cada vez mais. Saiu de Copa e foi para a Pizzaria Gambino, no Largo do Machado, e ali ficou alguns anos. O local era muito acolhedor e tinha uma sala reservada que era ótima para nossos encontros mensais. Chegamos a fazer até uma play no segundo andar da pizzaria, que na ocasião foi fechado somente para nossa turma. Me desculpe, mas não me pergunte nomes, pois sou péssimo para isto. Portanto, além da Gordinha, que era nossa líder, não citei mais qualquer outra pessoa para não cometer esquecimentos indesejáveis.


Lino: Quem decidiu pelo Bar do Ernesto? Como foi essa parceria?


Fidel: Bom, não sei exatamente quem descobriu o excelente ponto para encontros do Bar e Restaurante Ernesto. Só sei que tivemos de sair da Gambino, que era do ator Castrinho, porque ele iria fazer uma grande reforma para transformar a casa em fast food. No Ernesto, a Gordinha comandou os encontros até por volta de 2008 ou 2009... Foi quando ela teve de se afastar do meio BDSM por motivos pessoais e familiares. Durante uns seis meses, ficamos sem ter encontros até que fui cooptado por um grupo que queria voltar com nossas reuniões e achavam que eu seria a pessoa certa para administrar isso. Foi então que aceitei assumir junto com mais dois amigos que depois de uns tempos sumiram e me deixaram sozinho nesta empreitada que se manteve até fevereiro, quando então veio a pandemia do coronavírus.


Lino: Você observou alguma mudança nos praticantes de lá pra cá?


Fidel: Acho que a trajetória dos encontros no Ernesto mostra um pouco da trajetória do próprio BDSM na cidade. No início era um grupo pequeno, mas muito fiel, com pessoas que, de fato, praticavam o BDSM ou queriam aprender sobre. Chegamos a fazer algumas plays muito legais. Lembro de uma na casa de um psicanalista, no Vidigal, onde fizemos nosso primeiro shibari ao ar livre. Risos. Nesta época, eu já tinha assumido a natureza Top e tinha uma sub chamada Lola. Fiz nela um shibari meio tosco, mas valeu como experiência histórica. Os encontros no Ernesto acompanharam a evolução do BDSM Rio e sempre foi uma referência para pessoas que queriam conhecer esses personagens malucos que falavam abertamente de chicotes, cordas, velas, mordaças, palmadas, agulhas e outras coisinhas do maravilhoso mundo BDSM. Muita gente chegava lá e ficava surpreso, porque tinham aquela velha ideia de que o sadomasoquismo era uma coisa só dela e que era uma perversão solitária. Imagina quando uma destas pessoas entrava na salinha do terceiro andar do Ernesto e dava de cara com um bonde de 15, 20, 30 pessoas falando abertamente sobre isto, algumas discretamente experimentando assessórios, um garçom falando que sonha em ir para o X, e todos muito alegres e descontraídos?! Não era bem esta a ideia que muita gente tinha do sadomasoquismo, né? O fato é que resistimos até o dia que a pandemia nos fez parar. Depois que assumimos a administração do encontro, nunca tivemos um período tão longo sem nos reunirmos. Não ficou parado, nem mesmo no período em que tive de ficar afastado por alguns meses, depois de uma cirurgia no coração. Hoje, o encontro no Ernesto tem outro perfil. Eu acho que é um bom perfil e que acompanha a evolução do BDSM no geral. Uma coisa muito importante, sempre resistimos à ideia de nos transformarmos no GRUPO DO ERNESTO. Resistimos até mesmo quando houve aquela avalanche de criação de grupos por qualquer coisa. E a prática nos mostrou que estávamos certos. Os grupos acabam, se diluem... O Ernesto, como é um ponto de encontro, um momento em que todos podem se confraternizar e trocar ideias, se mantém forte e, acredito, que é hoje o encontro mais antigo (em atividade) do cenário BDSM nacional.


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