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Filmes para adultos, de mulher para mulher

Por Marianna Kiss


Atire o primeiro vibrador a mulher que nunca, nunquinha, nunquinha mesmo assistiu a um pornô na vida? Pornô mesmo! Sexo explícito! Penetração. Ejaculação na cara. Escândalos orgásticos. Vale foto também.


Alguém?! Eu perdoo quem é envergonhada. Pode assumir.


Poxa, eu queria tanto escrever uma super matéria para te convencer a matar a curiosidade sobre o pornô e assistir um comigo, mas já que você também é adepta e não hesita em assumir isso, vou te contar apenas como tudo evoluiu até que, finalmente, fossem produzidos filmes adultos para nós, mulheres. E, depois, solto uma entrevista inusitada que realizei com a diretora de filme adulto Lidy Silva.


Uma pitada de história



Para inicio de conversa, o culto a nudez sob o manto da adoração das deusas da fertilidade é milenar. Embora tenha sido encontrada na Áustria, em 1908, a Vênus de Willendorf, foi esculpida em calcário por volta do ano 30 000 a.C. Na Roma Antiga, o imperador Augusto, que governou entre 27 a.C. e 14 d.C., apreciava seus súditos venerando o deus da virilidade Príapo, e deixando nas paredes do templo textos pornográficos. De qualquer forma, os ímpetos sexuais eram explícitos já que ocorriam festas despudoradas em banhos públicos e não havia uma só sala de classe alta que não tivesse uma luminária em forma de falos ereto – pênis –, símbolo de sorte.



E a Grécia – não posso deixar de citá-la – não ficava atrás. Foi palco de grande parte da história da pornografia, tanto que é de lá que se originou o termo: pórne (prostituta) e grafe (grafia ou representação). As ruas eram adornadas com estátuas de corpos nus e bem definidos e os museus mais famosos do mundo não me permitem mentir. Cenas de homens e mulheres se beijando e se tocando decoravam vasos. Falos eram erguidos em procissões como imagens sagradas ao som de cântigos poetizados com palavras de baixo calão, justo para inspirar festas particulares em veneração a Dionísio, deus do vinho... E, como você acha que eram esses eventos? Eram bem mais quentes quando havia também concursos de mulheres nuas a exibir suas nádegas de Vênus, e disso eu tenho certeza. E não pense você que entre os intelectuais havia algum constrangimento. Claro que não. As cortesãs foram inspiração de vários escultores, políticos e filósofos como Demósteses, Aristipo, Dipogenes e Praxíteles. Os gregos tinham uma predileção pelo coito anal em suas manifestações artísticas referente ao sexo e peças teatrais contavam histórias tão sórdidas que fazem o “Massagem excitante” da diretora Lidy Silva parecer fichinha:



“Uma sociedade dissoluta. Um marido entra numa loja e diz ao joalheiro: ´Parto hoje mesmo pra Tessália. Minha mulher quebrou o fecho. Se você tiver tempo vai lá em casa e vê se coloca uma cabecinha maior no fecho dela´. Outro entra no sapateiro, jovem bem conhecido pela habilidade com que usa a sua ferramenta, e lhe diz: ´A fivela da cinta dourada que minha mulher comprou de você está machucando a pele delicada de seu ventre. Passa lá ao entardecer e dá um jeito no furinho dela. Se for preciso, faz um furo novo pra que ela fique mais folgada".



Este é um trecho de Lisístrada – A greve do sexo –, de Aristófanes – 411 a.C – comédia em que a protagonista incita as atenienses à greve de sexo a fim de acabar com a Guerra do Peloponeso. Algo no texto soa imaculado para você? E atual? Qualquer semelhança com o movimento hippie dos anos de 1960, altamente sexualizado, que lutou contra a Guerra do Vietnã levantando o lema “paz e amor” é mera coincidência. Risos.

E a coletânea do nobre Mallanaga Vatsyayana com mais de 500 posições sexuais descritas, publicado na Índia no século 2 d.C., e que é sucesso em todo o planeta até hoje? O Kama Sutra! Para o autor, o sexo fazia parte da criação divina e esse era o maior motivo pelo qual ele precisava ser praticado. E eu assino embaixo.



Agora, diga-me... Qual é a diferença entre o Kama Sutra e a pornografia contemporânea, hoje elegantemente chamada de filme ou conteúdo adulto? Eu respondo com o maior desprazer: a Idade Média, minha cara. A era do clérigo católico condenou a sexualidade como um todo ao inferno. Quem se entregava ao prazer da carne se afastava da redenção espiritual. Nem mesmo o menino Jesus podia ser retratado do jeito que veio ao mundo. Tudo e todos eram cobertos da cabeça aos pés. Mulheres sedentas por sexo eram condenadas à fogueira como bruxas ao mesmo tempo em que freiras e padres tinham suas peripécias sexuais descritas no lendário “Decameron”, de Giovanni Boccaccio. É claro que a Inquisição o condenou por heresia e ele teve de fugir. Só com o Renascimento, no século XIV, é que os artistas voltaram a pintar a nudez, mas a tolerância não durou muito e a luta dos subversivos contra o moralismo religioso perdura até hoje. E, eu não poderia deixar de citar aquele que entraria para a história como o ícone da pornografia: Donatien-Alphonse-François, o Marquês de Sade. Eu já o citei em matérias que escrevi sobre o BDSM, mas não custa nada relembrar que ele escreveu as famosas obras “Os 120 dias de Sodoma” e “Os crimes de amor”. Na França, no final do século 18, surgiram os primeiros libertinos – artistas e intelectuais pró-liberdade sexual – que se encontravam, secretamente, em organizações como a Sociedade para a Promoção do Vício, Clube do Fogo do Inferno ou a Ordem Hermafrodita. Nestes “clubinhos” particulares, ocorriam orgias escandalosas após a leitura e dramatizações de livros eróticos.

Segundo o historiador francês Sarane Alexandrian, em seu livro “História da Literatura Erótica”, o termo “phornographos” apareceu pela primeira vez nos “Diários de uma Cortesã”, uma narrativa sobre prostitutas e orgias. Logo, passou-se a entender a palavra “pornógrafos” como escritos sobre prostitutas que, com o tempo, estendeu-se a referir as relações sexuais sem amor. Somente a partir do século XIX é que o termo passou a ser empregado para designar a arte que retratava temas obscenos, de caráter sexual a fim de provocar excitação. E mais, pode-se afirmar que a pornografia evoluiu junto com a fotografia e as máquinas de impressão de fotos e ilustrações, que baratearam as produções, pois foi assim que ela se espalhou aos quatro cantos do globo chegando ao Brasil em 1870 – por meio de romances direcionados a homens que marcavam contos de adultério, incestos, aventuras em prostíbulos e até de padres que largavam a batina para se aventurar no pecado. Que deliciosa blasfêmia, pois não?! Os autores morreram anônimos, mas nos deixaram de herança alguns títulos como “Memórias do Frei Saturnino”, “Amar, Gozar, Morrer”, “As Sete Noites de Lucrécia” e “Camarões Apimentados”.


Vinte e seis anos depois, a indústria cinematográfica deu outro empurrãozinho na pornografia com a exibição de filmes como a “Wonders of the Unseen World”, ou “Maravilhas de um mundo não visto”, que continha cenas de striptease. Já as primeiras cenas de nudez total, porém não explícitas e encenadas por atores sem relação afetiva, ocorreram por volta de 1900, onde, a movimentação de corpos nus, apenas envolviam o espectador sugerindo o ato sexual. Os pioneiros dessa façanha foram os diretores Eugene Pirou e Albert Kirchner no filme “Maria vai deitar-se”, que narra uma senhorita realizando um striptease. Os estereótipos também estavam presentes e novas atrizes, selecionadas em bordéis, atuavam como ninfetas, exóticas, mulheres maduras, camponesas e sofisticadas. Os atores eram aspirantes da sétima arte atraídos pelos baixos salários além de alguns anônimos. Segundo a historiadora Mary Del Priori, que amo e sou fã, o primeiro filme pornô considerado de fato foi o francês, de 1908, “O Escudo de Ouro ou o Bom Albergue”, que narra a história de um soldado e uma doméstica e tornou-se um marco também por dar sensualidade ao corpo feminino. Dois anos depois, a produção alemã “Ao entardecer” mostrou cenas explícitas de masturbação feminina, de felação – ação de excitar o pênis com a boca – e penetração anal. É claro que esses filmes eram proibidos e considerados imorais e, a distribuição, posse e visualização, passíveis de prisão. Nas décadas de 1930 e 1940, a pornografia norte-americana conheceu a censura por meio de uma lei que proibia sua exibição. O sexo explícito perdeu lugar para a singela insinuação. Logo, as produções, que passaram a ser realizadas de forma clandestina em festas particulares ou prostíbulos, foram quase extintas.


Somente com a onda de liberdade hippie – olha o movimento aí de novo – no final dos anos 1960 é que a censura foi deixada de lado e os filmes pornôs voltaram com força total, tanto que em 1970 o “Mona, a ninfa virgem” foi o primeiro longa a ser exibido numa sala de cinema. Dois anos depois, estreou nas telonas o famoso – e lendário – “Deep Throat”. Diga-me em português que filmes é esse. Não sabe? Nem imagina. Pensa mais um pouquinho. Traduza ao pé da letra. Coloque no translator do Google. Desiste? Ok, eu revelo... Garganta Profunda, a narrativa mais tórrida da história que fala sobre uma ex-engolidora de espadas que tem o clitóris localizado na traqueia e transa com seu médico, amigos e namorados em busca de saciar sua sede. O filme arrecadou cerca de 600 milhões de dólares e fez de Linda Lovelace, com seu singelo cachê de 1250 dólares, uma pornstar. Atrizes pornôs tornaram-se multimilionárias e passaram a ter entrada livre em festas badaladas e em campanhas políticas, como uma em 1897 em que a húngara radicada na Itália Ilona Staller, a Cicciolina foi eleita deputada. No Parlamento, ela, com suas roupas extravagantes, atuou entre militantes pela paz, oferecendo uma solução para o fim da Primeira Guerra do Golfo: transar com George Bush e Saddam Hussein. “Um de cada vez!”, ela impôs sua ordem.


O boom das produções de filme adulto se deu a partir de 1980 com os vídeos cassetes espalhados nas residências justo porque os fãs do gênero deixaram de se expor nas salas “sujas” e lotadas. O pornô passou a er produzido em larga escala e nas mais diversas categorias. E isso marcou uma verdadeira transformação dessa arte que teve como pioneiro John Stagliano, mais conhecido como Buttman. Ele criou a “Pornografia Gonzo”, produção em que o diretor é também ator – ou seja, transa com as atrizes – e, às vezes também, operador de câmera, que teve por objetivo expor a relação sexual sem cortes e edição e, com muito humor. Nomes como Belladonna, Nacho Vidal e Rocco Siffredi estabeleceram a clássica sequência oral, vaginal, anal e ejaculação – no rosto ou seios – o que detonou com a era soft (cenas suavizadas e sem closes íntimos e que pode ser romântico e sem agressividade).

Nos dias atuais, por meio de smartphones e da internet, qualquer cidadão criativo pode roteirizar, produzir, gravar, editar e lançar seu próprio filme pornô nas redes, cobrando ou não pela exibição. Curtas ou longas. E os enredos e tramas são os mais diversos, atendendo todos os segmentos: gay, lésbica, transsexuais, milf, amador, loiras, ruivas, cabelos castanhos, morenas, orientais, anal, seios gg, big ass, big dick, celebridades, college, cosplay, desenho animado, fetiche, escravidão, gordinha gostosa, gozada no rosto, boquetes, bukkake, squirting, fisting, ménage, pés, teste do sofá, rude, romântico, masturbação, orgia, hentai, maduro, gozada interna e por aí vai. Estima-se que o mercado de conteúdo adulto, movimente anualmente, cerca de 14 bilhões de dólares no mundo.

De mulher para mulher


Embora saibamos que homens e mulheres consomem conteúdo adulto por meio de produções cinematográficas, fotografia, artes plásticas e literatura, a pornografia ainda é tabu. A cultura repressora cristã da Idade Média parece que não perdeu forças com o avanço da ciência da sexualidade e espalha por meio da moralidade que é sujo,

pecaminoso e indecente consumir produtos que proporcionem prazer, condenando irmãos e ovelhas ao inferno pelos dogmas das instituições. O Sexsência, enquanto canal de educação sexual, não está aqui para levar à forca quem é antipornografia, mas sim mostrar outras visões a fim de desconstruir ideologias erroneamente impostas à sociedade... E, já cumpri essa missão quando citei um pouco da história da pornografia.

Outro ponto de vista que condena o vasto universo do conteúdo adulto é o sexismo onde muitas mulheres argumentam sobre a nocividade. O ícone do movimento contra a pornografia foi a feminista radical, norte-americana falecida em 2005, Andre Dworkin que, em suas obras “Pornography: Men Possessing Women” e “Intercourse” afirmou que o gênero fazia apologia ao estupro, agradava apenas aos homens, além de não excitar as mulheres e explorá-las. Vale ressaltar que as feministas liberais não concordavam com essa opinião, assim como muitas sexólogas e terapeutas sexuais recomendam o consumo de conteúdo adulto para que mulheres aumentem seu repertório sexual e eu, como sexóloga, assino embaixo. É óbvio que eu não nego a existência do pornô mainstream – dotado de masculinidade agressiva submetendo mulheres ao bel prazer do grande público, os homens – e, muito menos que as mulheres não se excitam com isso e ainda podem ficar ofendidas baseadas na forte repressão sexual a qual ainda nos é imposta pela sociedade conservadora. Contudo, temos as nossas produções feministas que ganham notoriedade desde os anos 2000. Nomes como o das estrangeiras Erika Lust, Ms Nayghty, Cindy Gallop, Petra Joy, Tristan Taormino, Alison Lee e Lucie Blush, além das brasileiras May Medeiros, Jully Delarge e Lidy Silva já estão tomando conta do público. E mais, sob a ótica de um sexo mais ético, diversificado, consensual e com enredos mais realistas, sem machos alfa ou silicone, a nova geração de cineastas mulheres usa a produção de filme adulto como instrumento de emancipação política e sexual e coloca em discussão o impacto que podem ter na sexualidade dos jovens – não é segredo para ninguém que muitos iniciam a vida sexual se baseando em filme pornô. Numa produção feminista a mulher é sempre a protagonista, a qual só é submissa se for desejo dela – o foco da submissão é o homem –; há mais variedade no elenco fugindo de estereótipos; há enredos verossímeis e melhor trabalhados, ou seja, nada de partir para a transa sem um contexto prévio, embora isso não signifique uma versão romântica ou inocente; as cenas de sexo são mais realistas e os orgasmos são reais – ao menos é isso que preza a direção –; o sexo oral nas mulheres em cenas heterossexuais são bem mais demorados e valorizados; e há mais capricho com a estética da produção (fotografia, figurino, maquiagem). E que fique claro que as produções não são para espantar os homens ou ser contra eles, apenas são destinadas ao público feminino, o que é bem diferente. E, ressalto também, que há diretoras e produtoras mulheres que não se incluem no grupo das feministas, ou seja, também produzem mainstream.


E você? Curte o quê? Algo mais romântico ou agressivo?



Como especialista em sexualidade eu atendo dúvidas sobre:

identidade de gênero, orientação sexual, autoestima e disfunções e inadequações sexuais, de segunda a sábado on line e você pode me procurar no sexsencia@yahoo.com.


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Eu fico por aqui, gratidão por me ler, cópula a tergo e muita intumescência para o seu dia.

Marianna Kiss

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