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Manual para criar um filho preto na favela

Por Nice Lira


‘Há muito tempo analiso a possibilidade de falar sobre esse assunto, sobre o sentimento de medo que me consome todos os dias desde que me tornei mãe. Por acreditar que esse temor não é só meu, resolvi falar e mostrar de alguma forma o meu apoio às mães de filhos PRETOS e FAVELADOS.


Diante de tudo que estamos vivendo, ter de assistir o genocídio do povo preto nas favelas enquanto uma pandemia mundial mata milhares de pessoas por dia é desumano, dói. Na favela pessoas estão com fome, em algumas delas falta até água potável, enquanto isso a Organização Mundial da Saúde (OMS) pede que as pessoas fiquem em casa para se protegerem do vírus, mas em casa, na favela, ninguém está seguro. Quando o povo PRETO não morre de vírus, MORRE de TIRO.


O assassinato do menino João Pedro, 14 anos, em São Gonçalo, no dia 18 de maio me trouxe uma dor fora do normal, eu já tinha visto outros casos de jovens inocentes sendo assassinados por conta de sua cor e endereço, mas um jovem ter a casa alvejada e ter o corpo levado pela polícia sem nenhum responsável acompanhando, foi o ápice para eu pôr pra fora tudo o que tenho sentido.


Eu, mãe do Yago, 12 anos, criança preta e favelada, morro de medo de perder meu filho da mesma forma, visto que temos, ele e eu, os mesmos requisitos para que isso aconteça. Meu filho nunca brincou na rua. Eu nunca deixei por medo. Eu acreditava que em casa ele estaria seguro, mas hoje essa atitude já não faz mais diferença. O endereço do favelado dá “autorização” à polícia de atirar primeiro e perguntar depois, sem que ninguém cobre explicações.


MORAR na FAVELA é viver correndo RISCO de MORTE, morar na favela é sobreviver. Acordar todos os dias com a “bala comendo” e ter de trocar de cômodo para não levar uma “bala perdida” faz parte da nossa rotina. Quando do nada começa uma operação nos desesperamos porque tem algum parente na rua, seja indo ao trabalho ou à escola. Como saber quem está seguro?



É importante como mãe de filho preto ensinar como ele deve se portar diante da sociedade que o vê como suspeito. Já na infância é preciso explicar o “Manual de Sobrevivência”.

Quando criança ele não vai entender o porquê de todo esse cuidado, então vai ser mais doloroso ter de repetir sempre a mesma coisa, muitas vezes controlando até as brincadeiras infantis. No shopping é preciso controlar para que ele não toque em objetos ou brinque de correr, mas as crianças brancas podem. Em locais públicos não pode correr ou se aproximar das pessoas, pois elas se assustam, escondem suas bolsas.


Quando jovem, ao sair de casa ele precisa estar com os documentos no bolso ou carteira. Se abordado por um policial deve tratá-lo com respeito, levantar as mãos e chamá-lo de senhor, mesmo assim corre o risco de sofrer algum abuso de poder. Se estiver com amigos, jamais deve fazer o mesmo que eles, caso eles respondam de forma “abusada”, principalmente se forem brancos. Se começar um tiroteio, ele não pode em hipótese alguma correr, para evitar tomar um “tiro justificado”.


A dor e o medo é tanto que cheguei a olhar as minhas fotos com meu filho nas redes sociais para ver se ele tem um “PERFIL MATÁVEL” ao olhar da sociedade e sim, ELE TEM. Chorei por horas e horas e por isso resolvi desabafar.


Mães estão perdendo seus filhos diariamente nas favelas, muitas ainda precisam lutar para comprovar a inocência de seus filhos, já que policiais costumam implantar falsas provas contra esses jovens. Tudo isso para justificar um assassinato. O racismo estrutural faz com que a sociedade acredite que o preto que morreu devia alguma coisa, que nada aconteceu por acaso. Portanto, a sociedade não cobra e o ESTADO CONTINUA MATANDO nossos meninos.


É preciso entender a dor dessas mães, é preciso julgar menos e é preciso exigir justiça e respeito ao povo favelado. TODOS SOMOS IGUAIS E NA FAVELA TEM GENTE DE BEM.”




Graduada em Jornalismo, Radialista, Comunicadora Popular. Mãe, preta e favelada.

A Revista Sexsência está longe de falar sobre políticas públicas, contudo, eu também sou favelada e, embora não seja preta ou tenha um filho preto, eu também sofro com as mesmas balas perdidas e limitações de ir e vir que a violência me impõe. Conheci a Nice ainda menina e posso dizer que “troquei suas fraldas”, pois a vi se tornando uma mulher de fibra e que luta arduamente pelos seus sonhos. Eu também choro com as notícias de jovens negros assassinados por serem confundidos com bandidos, como se esses fossem passíveis do mesmo tratamento num país onde há lei e esta serve para julgar e condenar. Nossos adolescentes têm sido castigados sem julgamento prévio e, muitos deles nem precisam de um visto que são meninos de bem. E o que este tema tem a ver com sexualidade? Tudo! O estigma social detona com a autoestima e a autoconfiança desses adolescentes pretos e, em vez de terem um amadurecimento normal e estarem vivendo seu primeiro amor, seu primeiro beijo e sua primeira transa como qualquer outro jovem branco, eles estão pisando em ovos para não tomarem uma dura da polícia ou para não serem atrelados a marginais ou ainda perdendo suas vidas para a extrema violência.


Fica aqui o meu lamento e a minha emoção,

Marianna Kiss



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