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O lugar do coração nas filosofias africanas

Por João Raphael


João Raphael Ramos dos Santos (jrrsantos2@gmail.com) é cientista social e mestre em Educação pela UFRJ. Escritor de fantasia e afrifuturismo, cineasta, professor de Ensino Médio na rede privada e criador da Adinkra Produções, produtora voltada para conteúdos afro-diaspóricos, apaixonado pela docência, pela produção de conteúdo, inovação e pesquisa antirracista.


“O coração é a morada da nossa consciência”

- Katiuscia Ribeiro


Falamos pouco das coisas do coração. E podemos buscar, na filosofia clássica ocidental, a raiz pelo qual a nossa sociedade, atualmente, separa corpo e alma, coração e mente, seguindo uma dicotomia eterna que extrapola a vida cotidiana e é interiorizada em nossos corpos. Aristóteles e Platão, por exemplo, separavam o mundo sensível (mundo das coisas materiais, que podemos tocar, das mudanças constantes) do mundo inteligível (mundo das ideias, o mundo ideal, no qual as coisas são imutáveis). Ainda que reconhecidamente esses filósofos tenham bebido das águas do Nilo e viajado até o Egito Antigo para aprender a filosofia que ensinariam nas pólis gregas, o conhecimento ancestral, que jamais separou coração e mente, foi severamente transformado numa filosofia da dicotomia, da separação. E foi essa a filosofia que a história privilegiou. O pensamento filosófico euro-cristão foi trazido pelos povos colonizadores e num longo e violento processo, apagou, invisibilizou outras formas de ver e estar no mundo, principalmente se tivessem relação com a ancestralidade afro-indígena.


Por exemplo, os Zuñi, nativos americanos do sudoeste dos EUA, que já viviam no território milhares de anos antes dos colonizadores, como outros grupos tribais ocidentais, tinha uma tradição bem estabelecida de troca de gênero. Os exploradores franceses deram a isso o nome de berdache. Os homens biológicos podiam assumir o papel social das mulheres, vestindo roupas femininas, realizando tarefas atribuídas a elas e até se relacionando com homens não berdache.


Existem outras maneiras de compreender o coração para além do olhar eurocêntrico? A filosofia africana, cunhada por filósofos como Renato Nogueira e Katiuscia Ribeiro, a partir da leitura de autores como Cheik Anta Diop mostram que nossos passos vêm de longe e a ancestralidade negra está presente no ventre do ventre que nos gerou. Não somos apenas seres pensantes. Nossa existência não depende do pensamento, como afirmou Descartes. Somos seres viventes, físicos, espirituais, tudo ao mesmo tempo.


Na filosofia africana, o coração é representado pelos ideogramas Ib. Ele é formado, como nos mostra Katiuscia Ribeiro, a partir de uma gota do sangue da nossa mãe. No ventre, já somos ancestralidade, o que significa que não somos um corpo solto no mundo, como algumas correntes filosóficas gregas e romanas acreditavam. Nos ideogramas do povo Ashanti, os Adinkras, um deles chama a atenção, seu nome é Sankofa, um pássaro que anda para o futuro, com a cabeça no passado. Essa relação direta com a ancestralidade está presente no pensar filosófico africano e indígena. Nas cosmologias dos povos originários, o mesmo princípio pode ser visto na Cobra Grande, uma cobra que morde o próprio rabo, indicando que os caminhos da vida e do além vida, nunca tem fim, somente início, meio e início novamente. No pensar filosófico afro-indígena, a vida existe em ciclos.


De volta ao coração (Ib), em seu texto A ética da serenidade: “O caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope”, o filósofo Renato Nogueira apresenta uma leitura do texto do escriba Amen-em-ope, escrito 1300 anos antes de Cristo, trazendo a compreensão do lugar da “barca”, aqui representando a travessia da vida, para os caminhos que escolhemos, e da “balança”, está representando a verdade, a justiça das escolhas que tomamos ao longo de nossas vidas. No pós-vida, segundo a filosofia egípcia, nosso coração é colocado na balança por Osíris e deve ser mais leve que uma pluma, o que a grosso modo significa que as nossas escolhas ao longo da vida devem ser tomadas no intuito de deixar o coração “leve”. Não devemos ignorar as coisas do coração se quisermos alcançar o bem-viver.


Não é a razão, como pregavam os filósofos clássicos ocidentais, o elemento civilizador, mas o coração. Para Nogueira,


"Na cosmovisão egípcia, o ser humano é formado por cinco elementos, ka, ba, akh, sheut e ren. Os termos, apesar de difícil tradução, apontam para força vital (ka); coração/alma (ba); força divina (akh) sombra (sheut) e identidade (ren). O endereço pós-morte física é um julgamento, ba – pode ser traduzido como coração [alma] – deixa o corpo material acompanhado do ka – força vital – vai, guiada pelo deus Anúbis, para o tribunal presidido pelo deus Osíris. Diante de Osíris, o coração da pessoa que deixou a vida terrena é colocado num dos pratos da balança (Maa), Maat, deusa da justiça coloca sua pena de avestruz no outro prato. O objetivo é medir o peso, se o coração for leve, uma vida melhor será dada como recompensa, festejando a vida eterna. Mas, se o coração for mais pesado do que a pena, a pessoa iria se encontrar com Ammit, deus com cabeça de crocodilo, corpo de leão e membros inferiores de hipopótamo responsável por aterrorizar as pessoas que têm o coração pesado por uma vida fora da medida (da harmonia)."



O que mais nos chama a atenção, no estudo da filosofia africana, é a ausência do bem e do mal inerentes aos nossos atos, como no pensamento euro-cristão. Todas as nossas atitudes são guiadas pela nossa consciência, ligada ao coração (Ib), ele deve estar leve com as nossas escolhas ao longo da vida, independentemente do que tivermos feito. O que determina para onde vamos após a morte física é esse equilíbrio, não o bem ou o mal, o certo ou o errado, a direita ou a esquerda, Deus ou o Diabo. O pensamento dualista euro-cristão é incompatível com a pluralidade do pensamento filosófico ancestral africano.


E o que melhor para compreender a pluralidade do que o Ib? Nossos reais desejos, vontades, nossos sonhos mais profundos estão no coração. É importante pensarmos nesse coração, não de maneira romântica, como se pudesse haver um lugar fixo para ele em nossas narrativas, mas de maneira transcendental, espiritual e físico, plural. Katiuscia Ribeiro diz que o coração é a morada da nossa consciência. Essa é uma filosofia coronária, o pensar e o pulsar nunca foram coisas distintas.


Dessa maneira, podemos perceber, a partir do nosso coração, que somos capazes de corporificar os nossos desejos. A compreensão do corpo enquanto um templo entrega a dimensão da corporeidade enquanto princípio civilizatório afro-brasileiro. Essa noção já era fortemente trabalhada pela filosofia de matriz africana, muitas vezes confundida com uma religião. As divindades não estão apenas no alto, distantes, estão à nossa volta, na natureza, podendo eventualmente usar nossos corpos, como se fôssemos um copo a ser preenchido pelo sobrenatural. Essa relação não é dominadora, não é hierárquica, mas conflui, como as águas de um rio. A relação entre as filosofias africanas e a natureza nunca foi de destruição, ou de trabalho, ou lucro, mas, como diz Antônio Bispo dos Santos, de biointeração. Os saberes ancestrais sempre retiraram da natureza apenas o necessário para a sobrevivência da comunidade por que sempre compreenderam a necessidade do equilíbrio interno e externo.


De dentro para fora fizemos uma breve viagem pelo tema do coração nas filosofias africanas. Acreditamos fielmente que a solução para a crise que a humanidade agora vive parte de práticas amplamente conhecidas pelos nossos ancestrais. Essas práticas sobreviveram séculos a fio, sobreviveram as guerras, a escravidão, a colonização, seus modos e significados estão inscritos em nosso coração. Nos resta coragem para aprender com o passado, para avançarmos para o futuro.

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