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O que é ter um corpo perfeito?

Por Fagner Gabriel


Ponto de vista e perspectivas de um homem cis-gênero, heterossexual e as violências simbólicas sofridas.


O que é ter um corpo perfeito? De onde vem a padronização imposta por uma ideologia subjacente invisível e inerte para todos nós? Desde tempos imemoriais, a Matrix produz ideários dentro de um oceano de ilusões, criando ordens de desejos pré-fabricados por uma ânsia voraz de poder, onde a grande maioria não tem noção do quão são possíveis de possibilidades de realização interior sobre as suas respectivas existências e nos perdemos considerando que apenas existe este corpo e respectivas sexualidades, gêneros e corpos que conhecemos na atualidade da nossa ilusão da existência.



Imagem de Pexels


Por quais motivos são criadas determinadas subjetivações?


Neste texto, venho apresentar sobre algumas questões e perspectivas sofridas e impostas a este escritor que tecla estas mal traçadas palavras e, que tentará dentro de algumas linhas apresentar as violências simbólicas sofridas e também observações dentro da docência, em meu cotidiano e demais práticas.


Uma das primeiras questões que vivenciei foi por ser filho de mãe solo, mãe esta que é morena clara[i] como comumente classificada. Já eu, sou loiro de olhos verdes como atributos do meu pai biológico, pai este que nunca tive a honra de conhecer. E, ser filho de mãe solo no Brasil é ter e carregar um estigma, onde não existe uma aceitação da comunidade da qual você nasceu (e está inserido). Ser visto como um corpo estranho e de existir uma profunda diferença de tratamento, olhares e formas de lidar dos outros para conosco.


O termo “estigma social” foi criado pelo antropólogo, sociólogo e cientista social canadense Erving Goffman, para definir a marca ou sinal que designa o seu portador como desqualificado ou menos valorizado ou, segundo a própria definição, a situação do indivíduo que está inabilitado para aceitação social plena. Ele complementa em sua obra definindo o estigma[ii] como:


“...marca ou cicatriz deixada por ferida; qualquer marca ou sinal; mancha infamante e imoral na reputação de alguém; sinal infamante outrora aplicado, com ferro em brasa nos ombros ou braços de criminosos, escravos etc.; aquilo que é considerado indigno, desonroso; falta de lustre, brilho ou polimento; moral…”


O homem, filho de mãe solo, é tido por estes mencionados acima, como um indivíduo que não terá a devida capacidade de sobreviver em sociedade, do ser menos apto, de considerarem que este homem será homossexual (?) e que deverá prepará-lo para o mundo adulto como o gay que ele é e deverá ser tratado.


Em meu aniversário de 8 anos, pedi de presente para algumas pessoas um caderno-diário para escrever sobre o cotidiano de aventuras que eu vivia com os meus amigos do colégio. O motivo para este pedido foi a de sempre acompanhar as HQs da Turma da Mônica e de achar interessante sobre quando tinham histórias sobre diários.


Pois bem, ganhei de presente, de uma das minhas tias, um diário inteiramente rosa (observa-se, neste caso, a ressonância do preconceito e marcadores que as cores possuem em nossa sociedade) e, como desculpa ao dar o presente, ouvi uma coisa da qual nunca me esqueci: “como ele será gay, é bom que ele vá se preparando e nada melhor do este presente!”


Ao longo dos anos, fui crescendo com vários estereótipos e um deles se relacionou a não ter dentes perfeitos, eram tortos pelo fato de a minha mãe ser fumante e que a gestação foi de ansiedade pelo que viria, da não aceitação por parte de alguns.


A questão de ter dentes tortos sempre foi um gerador de vários apelidos e gracejos, por conta da minha capacidade de não conseguir sorrir e, na época, as paqueras sempre se manifestavam dizendo que eu era bonito, mas que era impossível beijar uma boca cheia de dentes tortos. Fato que acarretou em eu ser um adolescente considerado estranho, retraído e sempre me imaginando em um novo corpo no futuro onde pudesse produzir uma nova identidade. O que você faz com a perspectiva perfeita imposta pelo outro?


Coloquei aparelho e as percepções e autoestima foram melhorando. Essa é uma questão que necessita ser desenvolvida por pais, mestres e demais instituições. São as perspectivas da compreensão, do empoderamento, da inteligência emocional e da autoestima para que, desta forma, os indivíduos possam criar poder para responderem a estes entraves e dissabores sem se sentirem diminuídos por aqueles predadores sociais e demais perfis de sociopatas.


Cursei a graduação em educação física em uma turma onde sofri constantemente com o machismo por pura e simples questão de, na época, ser virgem. Descobriram isso porque a minha cara era a de um homem virgem e, por não tratar as mulheres com a costumeira agressividade de quem busca sexo e com violência de género. Sobre precisar perder a virgindade a todo custo para ser aceito e que, obviamente, não o fiz por pressão dos outros. Se já não fosse o bastante, os demais alunos me caçoavam com o dito “capacitismo” que sempre me perseguiu: "você é maluco, gente boa mas, será que você dará certo na educação física com esse corpo?”. E, principalmente, por ter um corpo não padronizado para a profissão, a partir dos pressupostos higienistas da qual a nossa profissão foi idealizada, onde o corpo muitas vezes é absorvido e observado de uma ampla e rasa visão e sem direito a dicotomias por parte daqueles que são parte da dita fundamental cadeia produtiva de funcionamento das vertentes de atuação que possuímos. A prática higienista é denotada por meio de:


“Preconizando normas e hábitos que colaborariam com o aprimoramento da saúde coletiva e individual, o “movimento higienista” era altamente heterogêneo sob o ponto de vista teórico (nos seus fundamentos biológicos e raciais) e ideológico (liberalismo e anti-liberalismo).”[iii]

Novas Masculinidades: quando me relacionei com uma mulher casada

Os preconceitos estão em nós desde o nascimento. São genéticos ou todos estão presentes por conta da nossa historicidade patriarcal e escravocrata? Ou, estão inertes aguardando para serem denotados por meio da servilidade à violência não perceptível e de uma não observação sobre o autoconhecimento?


Cresci tendo preconceito contra mulheres casadas que mantinham relações extraconjugais, em uma autêntica observação sobre a masculinidade frágil que habita em nós mas que não percebemos e, além disso, é uma ponte direta para um facismo interior, onde o purista das relações precisa considerar que o outro precisa ser uma ponte de denotação perfeita, fazendo com que as nossas energias estejam constantemente em um plano de baixa frequência e principalmente caminhando lentamente e ao lado de poderes ocultos das sombras.


Uma mulher em especial, foi importante em minha desconstrução deste preconceito tão tenaz. Isso se deu em 2005, com uma amiga que fiz e que sempre manteve diversas relações extraconjugais. Essa amiga precisa de um artigo apenas dedicado a ela tamanha a profundidade das suas falas. Ela fez com que o meu preconceito caísse inteiramente por terra e me fez observar, prestar atenção e principalmente passar a respeitar todas as mulheres que necessitam de um processo de escuta e que, ao longo dos séculos, muitas delas foram queimadas, perseguidas, assassinadas e tiveram, literalmente, seus nomes apagados da história.


Essa amiga possui intensas relações e amizades com o governo atual e com o Presidente da República. Continuamos, obviamente, mantendo contato sempre por meio de mensagens perguntando como estão os filhos e isto é um adendo para que aqueles que dizem que não podemos manter as amizades com os ditos fascistas, fica aqui o pensamento: é o meu extremo oposto que me completa e para que eu possa me tornar uma pessoa mais profunda.


Mesmo com essa amiga me ensinando, ao longo dos anos, eu nunca compreendi o cerne porquê mulheres casadas, ou com algum outro tipo de compromisso, sempre me procuravam.

Como buscar o cerne desta profundidade? Passei por um processo de transformação iniciado em 2018, onde abandonei e resetei a minha existência dentro do sentido de medos, dores, dissabores, ansiedades e auto flagelação do não controlar as emoções e o processo de autoconhecimento aprendido por meio dos processos de cura meditativos, legados pelo perdão, transformação e análise profunda das minhas sombras, erros e acertos. Tudo isso mostrou que eu sou um homem de escuta, amigo, extrovertido e que busca o melhor para o outro, ou seja, essa deveria ter sido a análise de anos atrás, mas ao contrário, eu simplesmente busquei a experiência por simplesmente achar errôneo e pecaminoso.

O meu processo de autoconhecimento foi e tem sido um importante aliado ao buscar múltiplas possibilidades para o meu corpo, expandindo a minha mente, compreendendo potências adormecidas e me estabilizando emocionalmente. Este foi um passo para um legado de buscas interiores e de saber como as amarras nos deixam em um estado egóico.


Em 2019, conheci uma mulher durante uma aula da graduação em pedagogia. Ela era arquiteta e estava em sua segunda graduação. Ela se sentou ao meu lado durante a aula, começamos a conversar e a potência e a atração foram instantâneas. Mantivemos contato diário até que marcamos um encontro na orla do campus onde estudo. Cheguei ao local, começamos a conversar e ela parecia misteriosa. O beijo aconteceu naturalmente e, quando estávamos sentados abraçados eis que me contou que era casada. Na hora eu fiquei sem saber como me comportar, dei um suspiro, olhei para os lados e pensei: “não vou fugir e essa é a hora da minha desconstrução”.


Este suspiro foi ensurdecedor, comentado por ela semanas mais tarde. Carregado de significados, denota o quanto as ideologias preconcebidas e pregressas estão em nosso cerne, como relatado lá em cima sobre como elas surgem (ou se estão em nós). E, me lembrei imediatamente do documentário “O guia pervertido das ideologias”, do filósofo Esloveno Slavoj Zizek, que foi produzido pela diretora Sophie Fiennes, onde no ele desenvolve sua tese com trechos de diversos filmes e apresenta sua visão sobre como baseamos a nossa existência nas crenças, valores e preconceitos produzidos pela indústria do entretenimento:


“Alega que a ideologia é a própria visão de mundo; é a forma como a sociedade é organizada. E tal ideologia está naturalizada e oculta no dia a dia; é a nossa relação espontânea com o mundo social. Deve-se, então, ser debatido e propagado cada vez mais tais aspectos para que possamos enxergar tais faces da Ideologia”

Fagner Gabriel foi um de meus entrevistados de setembro na live sobre o mito do corpo perfeito. Ele é especialista em docência do ensino superior, idealizador do Projeto Multicultural Itinerante Free Art

Li, além de ser graduado em educação física, estar cursando antropologia e ser fascinado por animes, desenhos e por ficção-científica. Carinhosamente ele escreveu esse texto em continuidade da matéria “O mito do corpo perfeito” da edição de outubro da Revista Sexsência.


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