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“Simplesmente você não é você”

Por Marianna Kiss


Esta frase está no livro “Os onze sexos”, do psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa e foi baseado nele que eu entrevistei o transexual homem Richard Alcântara no Sexsência.

Eu já havia entrevistado a Kelly Pivetinha, transexual mulher, contudo, como ela é atriz pornô acabamos focando mais em sua profissão do que em seu dia a dia. Conheci o Richard ao ler uma matéria que relatava a homenagem linda que sua família lhe fez ao se revelar homem.

Richard tem 22 anos, é noivo de Yuri Almeida – mulher cisgênero – e apareceu nas redes sociais por causa de sua família. Ele se assumiu trans para a família há dois anos numa festa surpresa que ele organizou para o aniversário da mãe onde apareceu pela primeira vez sem camisa e com fitas escondendo os seios. Na verdade, ele tirou rapidamente a roupa e pediu que Yuri tirasse uma foto. Seu tio Oswaldo vendo que Richard logo colocou a camisa e correu para o banheiro por estar super envergonhado, pediu a fita para Yuri e fez com que todos os homens da família a colocassem cobrindo os mamilos. Tio Oswaldo quis mostrar – e o fez com o maior amor do mundo – que Richard era tão homem quanto todos os demais presentes. Até o pequeno Rafael, seu priminho ainda bebê entrou na brincadeira e ganhou fitas, o que nos traz esperança já que é uma criança que vai crescer conhecendo e respeitando o que é a transexualidade.



“Eles me aceitam, me compreendem e me respeitam e eu ser um homem trans não me faz ser menos homens do que eles.”


Richard ficou assustado e ao mesmo tempo feliz, quando saiu do banheiro e se deparou com todos os homens de costas que, em seguida, se viraram para ele. Todos com a mesma fita que ele. Sua primeira reação foi chorar bastante, pois realmente não esperava por aquilo. Richard afirma que seu choro foi de conquista por ser o único trans da família, embora haja gays e lésbicas. Isso o deixou com medo e quando ocorreu a brincadeira incitada pelo tio Oswaldo, Richard se sentiu aliviado, pois era o retrato de que todos haviam entendido o que ele realmente é. “Mudar o meu corpo, minha aparência e meu gênero não mudou o meu caráter e é isso o que muitas famílias não conseguem entender”. Yuri filmou tudo e colocou na internet e o vídeo – de amor – viralizou até que chegou no Sexsência.


Citando um pouco “Os onze sexos”, a medicina e a psicologia não encontraram respostas para a transexualidade. Transexuais masculinos e femininos não apresentam anormalidade biológica. Richard não era uma mulher que desejou se tornar homem, ele é psicologicamente homem e sempre foi. E, toda vez que se olhava no espelho, não se reconhecia, pois sentia que falta alguma coisa. Seus órgãos sexuais não lhe pertencem e há vergonha a ponto de, muitas vezes, não se tocar e não permitir ser tocado, isso até que as transformações comecem. “Simplesmente você não é você” e o Sexsência entende perfeitamente esse sentimento.


Nos EUA, onde há mais campo para a cirurgia de redesignação sexual ou transgenitalização, 40% atendem aos homens trans. A cirurgia deixa a desejar e o resultado nem sempre é satisfatório. Fechar o canal vaginal e implantar um pênis não garante total prazer sexual, mesmo porque ele está muito mais na nossa cabeça do que no nosso corpo. Nos EUA não é necessário um período mínimo de acompanhamento psicológico com terapia sexual e psiquiatra com laudo e, muitas vezes, tanto a terapia hormonal quanto a cirurgia de redesignação ocorrem durante a adolescência e assim que se completa 18 anos, respectivamente. Eu indico uma série chamada “A vida de Jazz” que está nas redes. Jazz é uma adolescente transgênero que inicia a terapia hormonal ainda na adolescência e quanto completa 18 anos se submete a cirurgia e passa por algumas complicações. No episódio da cirurgia um de seus médicos diz que, por ela ter iniciado a hormonoterapia antes de seu corpo se formar por completo, o seu pênis não se desenvolveu como deveria para agora ser redesignado para construir uma nova vagina. Médicos brasileiros afirmam que a explosão hormonal na adolescência é essencial para um processo de redesignação sexual consciente e com maior sucesso.


No Brasil, a cirurgia tanto realizada pelo SUS quanto por um hospital particular exige no mínimo dois anos de acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, além de uma ação judicial. E, somente para pessoas a partir dos 21 anos. É realizada nos Hospitais das Clínicas em Porto Alegre, nos Hospital Centrais da Universidade Federal de Goiás, de Pernambuco e de São Paulo e no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. Desde 2008 o SUS realiza a transgenitalização para mulheres trans e desde 2016 para os homens trans.

A faloplastia consiste no implante de um neopênis onde retalhos abdominais – junto com a gordura – ou outras partes do corpo são ajustados na posição do novo órgão que vai revestir a uretra e uma prótese de haste flexível para que ocorra a ereção. O neopênis não fica ereto de forma natural. Essa pele não tem sensibilidade erótica e, em boa parte dos casos, o clitóris é preservado. Quem realiza a cirurgia tem o prazer erótico e o orgasmo por meio de outras partes do corpo e da psiquê. Outro detalhe é que o saco escrotal também é reconstituído usando-se os pequenos e grandes lábios que são preenchidos com bolas de silicone. Há casos – não encontrei estatísticas – em que o neopênis necrosa, por isso a maioria dos homens trans optam apenas pela retirada dos seios – mastectomia – e órgãos internos – útero, trompas e ovários, chamada de panhisterectomia. Embora a funcionalidade do órgão e o sucesso da cirurgia não possam ser garantidos, o homem trans deseja completar o desenho do próprio corpo.


Há também a opção de metoidoplastia que consiste na retificação e alongamento do clitóris formando um minipênis. Para as mulheres trans as cirurgias realizadas são a orquiectomia – amputação do pênis –, a neocolpoplastia – construção da neovagina –, a tireoplastia – redução do pomo de adão –, e complementares como a meatotomia e a meatoplastia – aumento do calibre da uretra e estética dos grandes e pequenos lábios e clitóris. Uau! É muita coisa para a ser pensada antes de uma decisão que pode mudar uma vida para sempre e sem chance de arrependimento. E não é apenas a cirurgia que pipoca na cabeça dos trans, há também a terapia hormonal, aparentemente mais simples de ser realizada, mas que necessita de tanta responsabilidade e consciência quanto, pois chega a um ponto em que a mudança é irreversível. Esta, no Brasil só é autorizada legalmente a partir dos 18 anos e se não for realizada com o devido acompanhamento profissional pode acarretar em trombose, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infertilidade e alteração da função hepática para as mulheres trans e policitemia – excesso de células vermelhas no sangue – e trombose para os homens trans. Achou que o lance se resume em ir numa farmácia e tomar anticoncepcional ou encomendar com o coleguinha da academia anabolizante de cavalo?! Na dúvida sobre hormônios eu indico o “Guide to hormonal Therapy for trans people” que é um guia produzido pelo Escritório Central de Informações do Departamento de Saúde do Reino Unido em 2007. Ah! E nem pense em alterar o corpo sozinha, você mulher trans, usando silicone industrial, pois é muito arriscado.


Continuando o bate papo com Richard, ele aguarda na fila de espera do SUS para a retirada dos seios. E, já pesquisou muito sobre as demais cirurgias e assume ter medo por conta das complicações já citadas. Para se sentir completo, ele um binder, faixa que esconde os seios e um packer, um pênis artificial que tem a mesma cor e textura de um pênis de verdade. O packer não é como os sexytoys que são vendidos às mulheres em sex shops, são produtos pensado nas funcionalidades de um pênis para que um homem trans se sinta bem com seu próprio corpo. Ele é macio e o trans o utiliza para penetrar e sentir e dar prazer no ato sexual – há umas ondas em sua base que estimulam a fricção do clitóris quando é encaixado na virilha –; faz volume na cueca, o que é essencial para um visual masculino; urinar em pé; e fica flácido para que seja acomodado na cueca. “Opa! E como eu faço para ele ficar ereto para a penetração?”, eu sabia que você iria me perguntar. Risos. Ele vem com uma vértebra, uma coluna dura que o homem encaixa dentro do pênis na hora do sexo. Sensacional!!! E é claro que o Richard mostrou o dele, o que fez a live pipocar.


Ficou curioso? Então, assista a live completa no Instagram @sexsencia ou no @sexsencialgbtqia. E, espalhe aos amigos coloridos ou não, pois precisamos dar voz a essa comunidade tão reprimida, além de esclarecer dúvidas a abrir a mente dos resistentes. Conto com você, hein!!!


Como especialista em sexualidade eu atendo dúvidas sobre: identidade de gênero, orientação sexual, autoestima e disfunções e inadequações sexuais, de segunda a sábado on line e você pode me procurar no sexsencia@yahoo.com.



Ah! Me acompanhe também nas redes sociais, no Instagram estou como @sexsencia e @mariannakisskiss e no youtube.com/sexsencia. #asclitonianas


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Eu fico por aqui, gratidão por me ler, cópula a tergo e muita intumescência para o seu dia. Marianna Kiss

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