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Subserviência e o BDSM

Por Lino Naderer


No BDSM costuma-se valorizar bastante a dedicação que alguns submissos investem em seus Dominadores, há casos em que o submisso suporta qualquer tipo de comportamento – e suas consequências sem perceber que está abrindo mão da sua própria vida e de seus objetivos e que seu comportamento ressalta algo problemático no outro. Algumas pessoas (nesse caso falo de pessoas no geral, não apenas submissos) só se sentem úteis vivendo em função do outro, mesmo que na maioria das vezes essa motivação seja inconsciente. Esse comportamento vamos chamar aqui por subserviência.


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A subserviência é a maneira mais opressiva encontrada pelos principais do comando para subjugar os demais.


O que está em evidência na submissão é a consensualidade, respeito à vontade, ao desejo, aos limites e necessidades dos que fazem parte da relação enquanto na subserviência o que vale é a vontade e interesse daqueles que estão em postos mais elevados.


A subserviência no BDSM está relacionada a uma extrema dificuldade em colocar limites para o comportamento, muitas vezes problemático, do Dominador, principalmente quando esse demonstra traços narcisista e/ou maníaco por controle (control freak). Costuma ser o sub que tolera todas as exigências do Dominador, sob o discurso de que "o prazer do sub se resume a servir a todas as vontades de seu dono", acaba se tornando uma pessoa que suporta tudo por medo de pressões e chantagens emocionais feitas por ele, como por exemplo, a separação.


Os subservientes, no BDSM, geralmente são pessoas sem a personalidade consolidada, sem instinto de autopreservação. Invariavelmente, os subservientes possuem baixa autoestima, e sentem-se úteis e valorizados somente quando cuidam, resolvem e toleram os comportamentos, mandes e desmandes do outro. Tudo isso porque temem perder o amor ou atenção do outro, e porque necessitam da aprovação alheia, desejando serem vistos como mártires ou símbolos da "verdadeira submissão". Acredita-se com isso, que há um ganho secundário, embora exista um sofrimento muito grande ao tolerar certos tipos de abuso. Os subservientes se mostram muito solícitos, sempre prontos a servir ao seu Dominador, não importando as circunstâncias. Apresentam dificuldade em nutrir relações saudáveis e que valorizem a autonomia e estabelecer certos limites que respeitem sua integridade física e mental. A necessidade obsessiva em cuidar do comportamento do outro faz com que utilizem de disponibilidade e entrega exageradas. Isso tudo acontece de forma compulsiva, as vezes sem perceber porque estão agindo dessa forma. Ainda existe um sentimento de incapacidade, pois acreditam que sua servidão nunca é suficiente para atender a demanda do outro.


É importante diferenciar os comportamentos saudáveis de cuidado existente nas relações D/s. Um submisso tem sim seu prazer em servir seu Dominador, em o ver satisfeito com certos desejos realizados, mas entende suas próprias necessidades, não se anula na relação, no emprego ou família em função dele. Geralmente o subserviente muitas vezes nem tem real atração, real kink/fetiche na submissão, apenas encontrou no BDSM um espaço onde pode melhor conduzir suas questões com baixa autoestima, falta de personalidade e dependência do outro, projetando suas questões e fazendo o outro de muleta. Na verdade, a subserviência é um padrão de relacionamento egoísta, onde existe o medo excessivo de perder o outro e que resulta em prejuízos para saúde física e emocional.

Quem costuma se relacionar com os subservientes?


Há um certo tipo de comportamento exaltado em submissos, em "não ter limites" ou em dizer "meus limites são o que meu Dominador assim desejar e ordenar", como se ao pisarmos no BDSM deixássemos de lado todas as ferramentas de autopreservação que deveriam ter sido estimuladas pela vida e em contrapartida, muitas vezes o perfil de quem se relaciona com um subserviente é:

  • Alguém com valores simplistas quanto ao papel de Dominação e submissão;

  • Alguém que pouco entenda ou valorize as necessidades de um submisso para além das suas próprias necessidades ou critério "um submisso precisa do que eu acho que precisa";

  • A falta de uma personalidade mais empática;

  • Uma tendência a só negociar com quem não estabeleça limites e os deixa a sua mercê, sem muito questionar o conhecimento sobre as práticas e bagagem necessária para alguém concordar com uma relação nesse formato;

  • Uma tendência a achar que sua bagagem e conhecimento são suficientes para conduzir uma negociação pelos dois;

  • Alguém sem atração, kink/fetiche real, mas que vê no BDSM uma oportunidade de tirar proveito de alguém e ver ali certos benefícios de forma unilateral;

Características de um subserviente

As personalidades subservientes geralmente seguem um padrão de comportamentos consistentes, problemáticos e interferem diretamente na saúde emocional e na capacidade de encontrar satisfação em um relacionamento. Algumas características da subserviência incluem cuidados excessivos, controle e preocupação com pessoas e coisas fora do normal, não cogitando desejos próprios e nem levando em conta suas próprias necessidades e integridades. Alguns pontos a se observar em comum num subserviente

  • Tem dificuldade em tomar decisões em um relacionamento;

  • Tem dificuldade em identificar seus próprios sentimentos;

  • Tendo dificuldade em se comunicar em um relacionamento;

  • Valoriza mais a aprovação dos outros do que valorizar a si mesmo;

  • Falta de confiança em si mesmo e baixa autoestima;

  • Ter medo de abandono ou necessidade obsessiva de aprovação;

  • Ter uma dependência doentia de relacionamentos, mesmo a seu próprio custo;

  • Ter um senso exagerado de responsabilidade pelas ações dos outros;

  • Não saber informar seus desejos e fetiches para além do exposto por seu parceiro;

  • Nunca ter desejo próprio, estar sempre a mercê do que é apresentado por seu novo dominador, mudando facilmente de acordo com que muda de dominador;

  • Dificuldades em negociar, tendência a entregar-se sem grandes questionamentos.

Quais são as consequências da subserviência para a vida do submisso?

À medida que a pessoa subserviente abandona suas necessidades e objetivos ao longo da vida, ela entra num processo de abandono de si mesma e de autodestruição. Como esse padrão ocorre a longo prazo, normalmente durante vários anos, resulta em muitas perdas – perda do tempo que deveria ter sido investido em si mesmo, em seu lazer, em projetos pessoais, perda de relações que poderiam ter sido saudáveis. Isso tudo pode desencadear alguns danos para a saúde da pessoa, seja no aspecto físico através de doenças psicossomáticas ou no campo psicológico – normalmente os subservientes apresentam quadros depressivos ou ansiosos acentuados.


Uma pessoa com tendências a subserviência precisa de acompanhamento e suporte profissional de psicólogos que os ajudem a consolidar a auto estima, a personalidade e o instinto de auto preservação. Submissão antes de tudo é compreender seu desejo de servir, sem se anular e deixar de informar e dialogar sobre suas necessidades.

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